Reviravolta nas células STAP

No final de Janeiro uma investigadora japonesa, Haruko Obokata, publicou dois artigos na conceituada revista científica Nature, em que descrevia uma nova técnica que permitia transformar células adultas em células pluripotentes, isto é, semelhantes às estaminais embrionárias. Estes trabalhos despertaram desde logo um grande interesse, não só por parte da comunidade científica mas também do público em geral, devido ao grande potencial destas células em medicina regenerativa.

As células denominadas STAP (Stimulus-Triggered Acquisition of Pluripotency) foram apresentadas como células pluripotentes induzidas em resposta a estímulos. Estes estímulos consistiam em “stresses” simples e transitórios, como a exposição a um meio mais ácido. Sem a necessidade de manipular geneticamente as células, prometiam-se grandes avanços nas terapias celulares regenerativas personalizadas. Por analogia ao que Haruko Obokata descrevia em ratinhos (nos artigos publicados), no futuro seria possível utilizar células adultas para gerar, de forma simples, todo o tipo de células do corpo humano.

Um “avanço” com esta dimensão foi obviamente muito acompanhado pela comunidade científica e desde logo surgiram muitas dúvidas. Diversos grupos de investigação por todo o mundo alegaram não conseguir reproduzir estes resultados. O Centro RIKEN para a Biologia do Desenvolvimento, onde se desenvolveu a investigação, concluiu a existência de má conduta científica apesar da inicial recusa por parte da autora/investigadora. No final de Maio, Haruko Obokata consentiu em retirar um dos artigos e, no passado dia 3 de Junho, a autora acabou por concordar que fosse retirado também o outro. A decisão final está agora nas mãos da Nature mas tudo indica que os artigos serão retirados de publicação.

A indução de pluripotência em células adultas é um assunto muito mediático e por isso houve uma grande exposição destes acontecimentos nos jornais e revistas. No entanto, é importante perceber que estes acontecimentos não põem em causa o potencial que as células pluripotentes induzidas (iPSC) poderão vir a ter no futuro. As iPSC, resultado de trabalhos de investigação de Shinya Yamanaka e John Gurdon, que lhes garantiu o Prémio Nobel da Medicina de 2012, são uma descoberta recente que está ainda a dar os primeiros passos em estudos pré‑clínicos e clínicos para desenvolvimento da tecnologia e para a criação de modelos de doenças. As iPSC são uma importante descoberta científica mas com muitos passos pela frente, para que possam ser usadas em terapia celular. Contrariamente, as células estaminais adultas, descobertas e estudadas há muito mais tempo, têm provas dadas da sua segurança e possuem aplicações terapêuticas. Nestas células incluem-se as células estaminais do cordão umbilical, aplicadas na clínica desde 1988, contando já com mais de 30.000 transplantes em todo mundo.