Aplicação de células estaminais no coração beneficia doentes com insuficiência cardíaca

Está atualmente a decorrer um ensaio clínico de fase III para investigar se doentes com insuficiência cardíaca crónica poderão beneficiar do tratamento com células estaminais mesenquimais. Este estudo pretende encontrar soluções alternativas para estes doentes, que apresentam um elevado risco de morte ou de sofrer episódios cardíacos graves que requerem hospitalização.

Apesar dos progressos na prevenção e tratamento das doenças cardiovasculares, estas continuam a ser a principal causa de morte em Portugal e na Europa, constituindo, também, uma das mais importantes causas de incapacidade e invalidez. Com o envelhecimento da população, antecipa-se um aumento significativo dos portugueses afetados por estas doenças, e só com insuficiência cardíaca o número poderá atingir cerca de meio milhão em 2060.

A progressão da insuficiência cardíaca está associada a inflamação cardíaca persistente, acompanhada de um processo de remodelação cardíaca, em que a estrutura do coração é alterada, causando uma disfunção permanente, que se vai agravando ao longo do tempo. O coração torna-se cada vez menos capaz de bombear sangue para o resto do corpo, provocando cansaço, sensação de falta de ar e inchaço do abdómen ou membros inferiores. As fases mais avançadas da insuficiência cardíaca são caracterizadas por hospitalizações frequentes, marcada limitação na capacidade física e baixa qualidade de vida.

Estudos anteriores indicam que as células estaminais mesenquimais são capazes de suprimir a inflamação cardíaca, melhorar a irrigação do coração e de estabilizar, ou até reverter, a remodelação cardíaca. Estas células podem ser obtidas, entre outros tecidos, a partir de medula óssea ou tecido do cordão umbilical e têm importantes propriedades regenerativas.

Ensaio clínico testa células estaminais em doentes com insuficiência cardíaca

Após o sucesso obtido no ensaio clínico de fase II, realizado nos EUA, em que os investigadores verificaram que a administração de células mesenquimais era capaz de reduzir o número hospitalizações devido a episódios cardíacos graves e de prolongar a vida dos doentes com insuficiência cardíaca crónica, está agora a decorrer um ensaio clínico de fase III, envolvendo 566 participantes, em 59 centros nos EUA e Canadá. O objetivo deste ensaio clínico, que se prevê terminar em dezembro de 2019, é determinar, de forma robusta e conclusiva, se a aplicação direta no coração de uma dose única de células estaminais mesenquimais da medula óssea é capaz de atrasar a remodelação cardíaca característica da insuficiência cardíaca, melhorar a capacidade física, diminuir a frequência de hospitalização devido a episódios cardíacos graves e prolongar a vida destes doentes. Os participantes são adultos com insuficiência cardíaca crónica, já submetidos a tratamento, em que o funcionamento do coração se encontra seriamente comprometido. Estes foram aleatoriamente distribuídos pelo grupo de tratamento, que recebeu células mesenquimais, ou pelo grupo controlo, que não recebeu células.

Aguarda-se a publicação dos resultados deste ensaio clínico, que poderão vir a ter um impacto significativo no tratamento de doentes com insuficiência cardíaca avançada, com potencial diminuição da morbilidade e mortalidade associadas a esta condição.

Referências:

Borow KM, et al. Phase 3 DREAM-HF Trial of Mesenchymal Precursor Cells in Chronic Heart Failure. Circ Res. 2019. 125(3):265-281.

https://www.sns.gov.pt/noticias/2017/10/04/doencas-cardiovasculares/ acedido a 05-08-2019.

https://www.dgs.pt/portal-da-estatistica-da-saude/diretorio-de-informacao/diretorio-de-informacao/por-anos-dos-dados-892489-pdf.aspx?v=11736b14-73e6-4b34-a8e8-d22502108547acedido a 05-08-2019.

Fonseca C, et al. Insuficiência cardíaca em números: estimativas para o século XXI em Portugal. Rev Port Cardiol. 2018. 37(2):97-104.