Bebés com doença cardíaca recebem tratamento experimental com sangue do cordão umbilical

Um estudo, conduzido nos EUA, concluiu que a aplicação de células do sangue do cordão umbilical no coração de bebés com síndrome da hipoplasia do coração esquerdo é segura, estando já planeado outro ensaio clínico para testar a eficácia desta metodologia num conjunto alargado de doentes.

A síndrome da hipoplasia do coração esquerdo é uma doença cardíaca congénita rara, em que o lado esquerdo do coração se encontra gravemente subdesenvolvido. É possível detetar esta malformação por ecografia durante a gravidez, estando previstas três cirurgias corretivas nos primeiros anos de vida, com vista a garantir o funcionamento do coração. A primeira cirurgia é realizada nos primeiros dias ou semanas de vida, a segunda por volta dos 4 meses e a terceira entre os 2 e os 4 anos. Apesar de estas intervenções permitirem restaurar a capacidade do coração para receber sangue dos pulmões e bombeá-lo para o resto do corpo, o ventrículo direito fica extremamente sobrecarregado, levando, com o passar do tempo, a insuficiência cardíaca. Por este motivo, tem-se procurado desenvolver estratégias para fortalecer o lado direito do coração usando células estaminais, de forma a prolongar o seu bom-funcionamento.

Demonstrada segurança da aplicação de células estaminais no coração de bebés com cardiopatia

Num ensaio clínico pioneiro, conduzido nos EUA, dez bebés receberam um tratamento experimental com as células estaminais do seu sangue do cordão umbilical, armazenadas à nascença. Durante a segunda cirurgia corretiva, por volta dos 4 meses de idade, as células de cada bebé foram injetadas no lado direito do coração, com o intuito de o tornar mais forte e, assim, conseguir suportar a sobrecarga a que está sujeito. De forma a maximizar o perfil de segurança do tratamento, os investigadores privilegiaram a utilização de uma fonte autóloga (do próprio) de células estaminais.  O resultado esperado é o fortalecimento do ventrículo direito, o que, de acordo com estudos prévios em modelo animal, poderá resultar da libertação de moléculas, por parte das células administradas, capazes de promover a proliferação de células do coração e a formação de novos vasos sanguíneos. A hipótese que se coloca é a de que as células do sangue do cordão umbilical consigam estimular o processo de reparação “natural” do coração e, simultaneamente, prevenir a inflamação e a fibrose. Para além dos resultados dos ecocardiogramas, que se mantiveram estáveis durante 6 meses após o tratamento experimental, o que sugere que este não comprometeu a função cardíaca, não foram registados eventos adversos significativos relacionados com o tratamento. Assim, embora preliminares, os resultados deste ensaio clínico indicam que este método de tratamento é seguro. Os investigadores planeiam já o ensaio clínico seguinte, que irá recrutar até 50 doentes, para avaliar a eficácia deste tratamento.

Com o objetivo de prolongar o bem-estar e qualidade de vida dos doentes com síndrome da hipoplasia do coração esquerdo, a implementação de estratégias de medicina regenerativa, complementares às abordagens atuais, poderá ser uma mais-valia neste contexto.

Referência:

Burkhart HM, et al. Autologous Stem Cell Therapy for Hypoplastic Left Heart Syndrome: Safety and Feasibility of Intraoperative Intramyocardial Injections. J Thorac Cardiovasc Surg. 2019. 158(6):1614–1623.