Bebés prematuros com doença pulmonar melhoram após tratamento com células estaminais

Do nascimento prematuro podem advir complicações a nível respiratório, que podem conduzir ao desenvolvimento de uma doença designada displasia broncopulmonar, a doença pulmonar crónica mais prevalente em bebés prematuros. O suporte respiratório com oxigénio, e a administração de corticosteroides e broncodilatadores fazem parte do conjunto de recursos atualmente disponíveis para o tratamento desta doença. A evolução dos cuidados neonatais nos últimos 50 anos tem permitido melhorar significativamente o seu tratamento, no entanto, esta doença continua a deixar sequelas que afetam a função pulmonar do indivíduo ao longo da sua vida. Recentemente, as células estaminais mesenquimais, pelas suas propriedades regenerativas, têm sido consideradas como uma opção potencialmente útil no tratamento desta doença. Em 2014, um estudo concluiu que o uso de células estaminais mesenquimais do sangue do cordão umbilical no tratamento de bebés com displasia broncopulmonar é seguro. Entretanto, outros estudos têm também demonstrado a segurança da terapia celular neste contexto.

Melhorias na função respiratória e na fibrose pulmonar em bebés prematuros após tratamento com células do cordão umbilical

 

Um novo estudo, recentemente publicado na revista científica Journal of Translational Medicine, reporta o sucesso do tratamento de 4 bebés prematuros com displasia broncopulmonar recorrendo a células estaminais mesenquimais do tecido do cordão umbilical. O tratamento consistiu em duas administrações intravenosas de células estaminais do cordão umbilical, com uma semana de intervalo. Os bebés foram observados uma semana, 1 mês, 6 meses e 12 meses após o tratamento.

Os dois primeiros casos retratados dizem respeito a duas gémeas, nascidas às 24 semanas de gestação, ambas com peso inferior a 1 Kg. Logo após o nascimento, apresentaram sérias dificuldades respiratórias, tendo sido necessário o recurso a ventilação mecânica para suporte respiratório. O diagnóstico de displasia broncopulmonar estabeleceu-se cerca de 4 meses após o nascimento. Apesar dos tratamentos convencionais utilizados, a sua condição não melhorou, levando a que fosse considerada a terapia experimental com células estaminais do cordão umbilical. A gémea mais velha iniciou o tratamento com células estaminais 144 dias após o nascimento, e a mais nova 7 dias depois disso. Três dias após o segundo tratamento, a gémea mais velha conseguia respirar espontaneamente, com uma saturação de oxigénio de 96%, tendo recebido alta hospitalar passadas 2 semanas. A irmã mais nova também reagiu favoravelmente ao tratamento, tendo recebido alta 3 dias após o tratamento com células estaminais, ainda dependente de terapia com oxigénio, devido a uma saturação de oxigénio de 83%. A evolução das duas gémeas durante o período de seguimento revelou-se muito positiva, com aumento consistente do peso, normalização dos resultados das análises ao sangue, e progressiva melhoria da fibrose pulmonar observada através de raios-X. Um ano após o tratamento, ambas apresentavam saturação de oxigénio de 100%, sem necessidade de suporte respiratório. O terceiro caso respeitou a um bebé nascido às 34 semanas de gestação, cujos problemas respiratórios obrigaram ao uso de ventilação mecânica durante 3 meses. O bebé manteve-se dependente de suporte respiratório com oxigénio, tendo sido tratado com células estaminais quase 6 meses após o nascimento. A sua evolução nos meses seguintes ao tratamento revelou-se muito favorável, tendo conseguido respirar de forma independente 2 meses após o mesmo, com níveis de saturação de oxigénio entre os 96-98%. O quarto recém-nascido tratado com recurso a esta terapia experimental foi uma menina, nascida às 28 semanas de gestação com 1,4 Kg, apresentando graves dificuldades respiratórias, que obrigaram ao uso de ventilação mecânica durante 9 semanas. Aos 4 meses de idade, apresentava-se malnutrida e dependente de oxigénio, tendo-se optado pelo tratamento com células do cordão umbilical cerca de um mês depois. Quatro dias após a primeira administração de células estaminais, a bebé era capaz de respirar espontaneamente. O período de seguimento revelou uma recuperação da função pulmonar, tal como nos casos anteriores, com diminuição da fibrose pulmonar e normalização dos parâmetros analisados. Um ano após o tratamento, a menina respirava autonomamente com uma saturação de oxigénio de 100%.

O tratamento revelou-se seguro em todos os casos, sem efeitos adversos associados, conduzindo a uma evolução favorável dos bebés no primeiro ano após o tratamento. Estes exemplos, agora publicados, apesar de não permitirem retirar conclusões definitivas acerca da eficácia do tratamento de displasia broncopulmonar com células estaminais mesenquimais do cordão umbilical, sublinham o seu potencial para o tratamento desta condição e a necessidade de conduzir ensaios clínicos com maior número de doentes que permitam avaliar adequadamente esta opção terapêutica.

 

Referências:

Nguyen LT, et al. Allogeneic administration of human umbilical cord-derived mesenchymal stem/stromal cells for bronchopulmonary dysplasia: preliminary outcomes in four Vietnamese infants. J Transl Med. 2020. 18(1):398.

Chang YS, et al. Mesenchymal stem cells for bronchopulmonary dysplasia: phase 1 dose-escalation clinical trial. J Pediatr. 2014 May;164(5):966-972.e6.