Células do cordão umbilical no tratamento de lesões cerebrais em prematuros

Segundo a Organização Mundial de Saúde, todos os anos nascem cerca de 15 milhões de bebés prematuros (antes das 37 semanas de gestação). Em Portugal a taxa de prematuridade ronda os 8%.

No cérebro e na espinal medula, existe uma “massa” denominada substância branca que é composta por células com função de suporte e nutrição dos neurónios, e por prolongamentos de neurónios revestidos com uma substância isolante (mielina) que aumenta a velocidade de transmissão dos impulsos nervosos. Esta “massa” é responsável pela transmissão de mensagens entre diferentes regiões cerebrais e, geralmente, entre a 26ª e 34ª semana de gestação encontra-se mais sensível. Por esta razão, os prematuros apresentam um elevado risco de lesão cerebral, particularmente de lesão da substância branca, que pode ocorrer durante a gravidez, no parto ou mesmo depois do nascimento.

Entre os principais fatores associados a estas lesões encontram-se a prematuridade, a inflamação e a hipóxia-isquémia (défice de fornecimento de oxigénio e sangue), e as consequências que daí podem advir incluem problemas neurológicos, défices de desenvolvimento cognitivo, físico e comportamental ou, em casos mais graves, paralisia cerebral. A complexidade desta patologia aliada à fragilidade extrema dos prematuros tornam difícil a prevenção e o tratamento das lesões da substância branca.

Uma nova estratégia que se encontra a ser investigada para o tratamento deste tipo de lesões é a administração de células estaminais mesenquimais (MSC, de Mesenchymal Stem Cells), as quais apresentam propriedades anti-inflamatórias e têm suscitado especial interesse para utilização em terapias de reparação neuronal. As MSC podem ser encontradas em diversos tecidos, nomeadamente na medula óssea, no tecido adiposo, no tecido do cordão umbilical e no sangue do cordão umbilical.

Células estaminais do sangue do cordão umbilical têm efeito protetor após lesões na substância branca em prematuros

Recentemente foi realizado um estudo em modelo animal com o objetivo de determinar se as MSC do sangue do cordão umbilical de prematuros possuíam efeito neuroprotetor em fetos prematuros com lesão na substância branca, induzida por hipóxia-isquémia. Para o efeito, um grupo de animais recebeu MSC e outro não recebeu terapia celular.

Os autores deste trabalho observaram que a hipóxia-isquémia que provocou a lesão, induziu a inflamação do tecido cerebral e a invasão do mesmo por células do sistema imunitário. Após o tratamento com as MSC do sangue do cordão umbilical, observou-se uma diminuição do estado inflamatório da substância branca cerebral dos prematuros, bem como um aumento de células responsáveis pela reparação do tecido nervoso. Neste mesmo grupo de animais tratados com MSC do sangue do cordão umbilical verificou-se ainda um aumento da produção de mielina e uma redução da quantidade de células do sistema imunitário no cérebro, estabilizando a resposta imunológica.

Face aos resultados em modelo animal prévios e aos resultados deste estudo, os autores do estudo publicado sublinham o potencial das MSC do sangue do cordão umbilical como protetoras das lesões na substância branca cerebral, por diminuírem lesões secundárias e promoverem a reparação e regeneração de algumas áreas já afetadas. Apesar da potencialidade desta nova estratégia terapêutica, mais estudos serão necessários para melhor entender os mecanismos de interação entre as MSC do sangue do cordão umbilical e as células do sistema imunitário, interação esta responsável pelo efeito favorável deste potencial tratamento.

 

Referência:

Li et al., Preterm umbilical cord blood derived mesenchymal stem/stromal cells protect preterm white matter brain development against hypoxia-ischemia. Exp Neurol. 2018 Jul 20; 308: 120-131.