Células do cordão umbilical no tratamento de sépsis grave

A sépsis é uma condição clínica potencialmente fatal que resulta de uma infeção grave causada por agentes patogénicos como bactérias, vírus, fungos e parasitas. A produção de toxinas e a invasão de tecidos por parte destes agentes originam uma resposta aguda do sistema imunitário que se traduz numa inflamação generalizada, podendo originar sépsis grave. Esta, por sua vez, provoca uma queda repentina da pressão sanguínea e vários órgãos vitais entram progressivamente em falência.

Anualmente, há registo de cerca de 20 a 30 milhões de casos de sépsis no mundo inteiro. Apesar dos grandes avanços clínicos, a incidência de sépsis grave continua a aumentar e a causar longos períodos de internamento nas Unidades de Cuidados Intensivos e taxas de mortalidade elevadas (cerca de 30% a 50%). Assim sendo, o diagnóstico atempado e o tratamento adequado são fatores cruciais para a sobrevivência e prognóstico dos doentes. Embora os tratamentos convencionais reduzam em cerca de metade o risco de morte, estes não modificam diretamente as alterações funcionais e os mecanismos das lesões associadas à sépsis. Como consequência, os sobreviventes apresentam danos permanentes nos órgãos e incapacidades físicas, psicológicas e cognitivas, pelo que é urgente desenvolver alternativas aos tratamentos já existentes.

Vários estudos pré-clínicos têm demonstrado que as células estaminais mesenquimais (MSC, de Mesenchymal Stem Cells) são promissoras candidatas para o tratamento da sépsis. O potencial terapêutico destas células advém das suas propriedades antimicrobianas e da capacidade de atenuar a inflamação, reparar os tecidos lesados e melhorar a resposta imunológica.

As MSC reduzem a inflamação, a mortalidade e a falência de órgãos associadas à sépsis

Recentemente foram publicados os resultados de um ensaio clínico de fase 1 que teve como objetivo avaliar a segurança e tolerabilidade de MSC alogénicas (de um dador) do tecido do cordão umbilical, no tratamento de doentes com sépsis grave. O ensaio incluiu 15 doentes que receberam uma única infusão de MSC do tecido do cordão umbilical até 24 horas após o diagnóstico desta condição. Neste estudo foram testadas três doses diferentes de células estaminais para determinar a dose mais segura a ser usada no futuro ensaio clínico de fase 2.

Os doentes foram acompanhados durante 18 meses após a infusão das MSC do tecido do cordão umbilical e os resultados obtidos foram comparados com os de um grupo de doentes que recebeu o tratamento standard para este tipo de condição. Durante o período de estudo não se observaram efeitos adversos graves decorrentes do tratamento aplicado e todas as doses de MSC testadas foram bem toleradas. Oito dias após a injeção das células do tecido do cordão umbilical observou-se uma redução da inflamação generalizada, melhoria da saúde global e recuperação das lesões de órgãos vitais. Além disso, a taxa de mortalidade e o tempo de hospitalização dos doentes tratados com MSC decresceram face ao dos doentes tratados convencionalmente.

Os autores do estudo mostram assim que uma única infusão de MSC do tecido do cordão umbilical é segura e bem tolerada pelos doentes com sépsis grave. Porém, serão necessários mais ensaios clínicos e um maior número de doentes, para que a eficácia deste tratamento seja devidamente avaliada.

 

Referências:

He et al., Umbilical cord-derived mesenchymal stem (stromal) cells for treatment of severe sepsis: a phase 1 clinical trial. Transl. Res. 2018 Apr 30; 1931-5244(18):30071-9.

Keane et al., Stem-Cell-based Therapies for Sepsis. Anesthesiology. 2017 Dec; 127(6):1017-1034.

http://www.biomerieux.pt/diagnostico-clinico/solucoes/sepsis