Células estaminais do cordão umbilical permitem melhorar visão de doentes com doença ocular

A neuropatia ótica refere-se a um conjunto de doenças decorrentes de lesão do nervo ótico – estrutura que transporta a informação visual captada pelo olho até ao cérebro. A neuropatia ótica manifesta-se com graus variáveis de disfunção visual e pode dever-se quer a causas hereditárias, quer a outros fatores, como traumatismos, infeções e doenças, como o glaucoma. A progressão da neuropatia ótica conduz à atrofia ótica, com morte das células do nervo ótico e perda irreversível de visão, uma vez que estas células não possuem capacidade para se regenerarem.

No âmbito da medicina regenerativa, a terapia com células estaminais mesenquimais é atualmente considerada uma estratégia promissora para o tratamento de doenças que afetam o nervo ótico. Estas células libertam fatores de crescimento capazes de promover a sobrevivência celular e ativar mecanismos intrínsecos de reparação. Vários estudos em modelo animal demonstraram já o efeito protetor e reparador das células estaminais mesenquimais em contexto de doença da retina e do nervo ótico.

Acuidade e campo visual de doentes com atrofia ótica melhoram após tratamento com células estaminais

Um estudo recentemente publicado na revista médica European Journal of Ophtalmology, reporta resultados favoráveis da aplicação de células estaminais do tecido do cordão umbilical em doentes com atrofia ótica. Os autores justificam a opção por estas células estaminais pelas suas múltiplas vantagens, nomeadamente a sua grande capacidade de multiplicação – sendo capazes de gerar grande quantidade de células –, baixo potencial para induzir reações imunológicas, por serem células muito jovens, e pela facilidade de obtenção, através de um processo simples e indolor, na altura do parto.

Neste ensaio clínico, realizado na Turquia, 23 doentes com idades compreendidas entre os 19 e os 82 anos, que apresentavam atrofia ótica com duração média de 11 anos, foram tratados com células estaminais mesenquimais durante uma intervenção cirúrgica sob anestesia local. Os doentes incluídos apesentavam atrofia ótica devido a diferentes causas, como glaucoma, traumatismo, intoxicação química e diabetes. Após o tratamento, todos os participantes foram sujeitos a avaliação passado 1, 3, 6 e 12 meses. Dois dos parâmetros avaliados foram a acuidade visual, que se refere à capacidade para distinguir com precisão a forma e contorno dos objetos, e o campo visual, que é a extensão do espaço que o olho consegue ver quando está parado a olhar em frente. Os resultados deste estudo revelaram-se positivos, uma vez que os participantes apresentaram melhorias significativas na acuidade visual e no campo visual um ano após o tratamento. De realçar que no acompanhamento feito antes deste tratamento, estes doentes não manifestaram quaisquer melhorias nestes parâmetros no ano anterior ao estudo, sendo o seu estado de atrofia ótica considerado estável ou progressivo.

Tendo em conta que não foram observados efeitos adversos graves ao nível ocular durante os 12 meses de seguimento, o tratamento com células estaminais do cordão umbilical pode representar uma alternativa segura e potencialmente eficaz para melhorar a visão de doentes com neuropatia ótica e atrofia ótica, sendo importante a realização de mais ensaios clínicos que suportem estes resultados.

Referência:

Kahraman NS e Öner A. Umbilical cord-derived mesenchymal stem cell implantation in patients with optic atrophy. Eur J Ophthalmol. 2020 Dec 14:1120672120977824. doi: 10.1177/1120672120977824. Epub ahead of print.