Células estaminais estimulam função ovárica em mulheres com insuficiência ovárica prematura

A insuficiência ovárica prematura caracteriza-se pela perda de atividade dos ovários em mulheres com menos de 40 anos, ausência de menstruação e baixos níveis de estrogénio no sangue. Afeta entre 1-3% desta população feminina e representa uma causa de infertilidade. Adicionalmente, as mulheres com insuficiência ovárica prematura apresentam risco acrescido de osteoporose e doença cardiovascular, devido à exposição a baixos níveis de estrogénios, questão habitualmente contornada através de terapia hormonal de substituição. Contudo, esta terapêutica não permite recuperar a fertilidade, pelo que é importante desenvolver estratégias nesse sentido. Uma das técnicas em estudo para restaurar a atividade ovárica e a fertilidade nestas mulheres é a utilização de células estaminais mesenquimais, com resultados promissores. Vários estudos pré-clínicos indicam que as células estaminais mesenquimais apresentam várias propriedades que podem desempenhar um papel terapêutico em contexto de insuficiência ovárica prematura, como a capacidade para atenuar a fibrose e a inflamação e de promover a formação de novos vasos sanguíneos e a sobrevivência de outras células.

Células estaminais do tecido do cordão umbilical promovem recuperação da função ovárica

Uma publicação recente descreve os resultados de um ensaio clínico, realizado na China, que avaliou a segurança e a eficácia do tratamento de insuficiência ovárica prematura, recorrendo à injeção de células estaminais mesenquimais do tecido do cordão umbilical diretamente nos ovários. No estudo, participaram 61 mulheres com idade média de 31 anos e, em média, não menstruadas há 3 anos. Onze das participantes receberam apenas um tratamento, 20 foram sujeitas a dois tratamentos e 30 receberam três tratamentos com células estaminais do cordão umbilical, tendo sido seguidas durante os 6 meses seguintes. Relativamente à segurança, não houve registo de eventos adversos graves decorrentes do tratamento. Cinco participantes apresentaram efeitos adversos ligeiros, de fácil resolução.

Para além do nível de estrogénio e de outras hormonas no sangue, um dos parâmetros mais importantes acompanhados durante o período de seguimento foi o desenvolvimento folicular – processo que conduz ao amadurecimento dos folículos, que contêm os ovócitos, e à libertação de um ovócito durante a ovulação. Após a terapia com células estaminais, verificou-se uma tendência de melhoria no desenvolvimento dos folículos. Em 3 participantes, que receberam células estaminais em apenas um dos ovários, observou-se a presença de folículos em desenvolvimento no ovário tratado com células estaminais, mas não no ovário não tratado, facto que evidencia a eficácia deste tratamento na estimulação da atividade ovárica. Em duas das 61 participantes, verificou-se o retomar da menstruação normal, sendo que numa delas se contaram mais de 10 folículos em desenvolvimento numa das consultas de seguimento, sugerindo recuperação completa da função ovárica. Em várias participantes foi, ainda, possível detetar a presença de folículos maduros durante o período de seguimento, indicando um potencial impacto positivo deste tratamento na fertilidade. Com efeito, três participantes engravidaram por fertilização in vitro, realizada com ovócitos maduros recolhidos após o tratamento experimental, e uma engravidou naturalmente. Todos os bebés se desenvolveram normalmente e nasceram saudáveis. Os autores referem que, embora na maioria dos casos o tratamento pareça ter tido um efeito positivo, noutros casos os resultados foram insatisfatórios, nomeadamente nas participantes não menstruadas há mais de 3 anos. As participantes com ausência de menstruação há menos de um ano apresentaram maior tendência para obter folículos maduros após o tratamento com células estaminais e as participantes com melhores contagens de folículos em fase inicial de desenvolvimento antes do tratamento apresentaram maior probabilidade de beneficiar deste tipo de terapia.

Neste estudo, não é apresentada uma correlação entre a dose de células estaminais administrada e os benefícios observados. Estes resultados indicam que a aplicação de células estaminais mesenquimais do tecido do cordão umbilical é capaz de estimular a função ovárica em mulheres com insuficiência ovárica prematura, resultando em melhorias no desenvolvimento folicular, com impacto na sua fertilidade. Esta pode ser considerada uma opção terapêutica promissora para tratar insuficiência ovárica prematura, sendo necessário realizar mais estudos que clarifiquem aspetos como a dose ideal de células estaminais e a duração da eficácia do tratamento.

Referências:

Yan L, et al. Clinical analysis of human umbilical cord mesenchymal stem cell allotransplantation in patients with premature ovarian insufficiency. Cell Prolif. 2020. 29:e12938. doi: 10.1111/cpr.12938. Epub ahead of print. PMID: 33124125.

Consenso nacional sobre a menopausa 2016. Sociedade Portuguesa de Ginecologia. 2017. Acedido a 12 de novembro de 2020, em http://www.spginecologia.pt/consensos/consenso-nacional-sobre-menopausa-2016.html