Células estaminais promovem melhorias em vítimas de AVC

O Acidente Vascular Cerebral (AVC) é uma das principais causas de morte e de incapacidade em Portugal, provocando sequelas graves numa grande parte dos sobreviventes. Um AVC ocorre devido a uma hemorragia ou falta de irrigação sanguínea no cérebro, podendo levar a défices neurológicos graves, com impacto significativo na qualidade de vida. Após a fase aguda, a fisioterapia é a principal estratégia utilizada para promover a recuperação destes doentes, pelo que é urgente desenvolver outros métodos eficazes no tratamento das sequelas de AVC.

Estudos anteriores já demonstraram que a administração de células estaminais mesenquimais (MSC, do inglês Mesenchymal Stem Cells) pode promover a recuperação de doentes que sofreram AVC, possivelmente através da reorganização dos circuitos neuronais afetados. A evidência científica sugere que as MSC ajudam a controlar a inflamação e estimulam a formação de novos vasos sanguíneos e novos neurónios, promovendo, assim, a reparação da zona lesionada.

Vítimas de AVC tratadas com MSC exibem melhor recuperação motora

Um estudo clínico recentemente publicado avaliou a administração de MSC derivadas de medula óssea do próprio em doentes que sofreram AVC isquémico. Este estudo teve como principais objetivos avaliar a segurança e exequibilidade do tratamento com MSC e analisar o seu efeito na recuperação funcional dos doentes durante um período de seguimento de 2 anos. Este estudo, conduzido no Centro Hospitalar de Grenoble Alpes, França, incluiu 31 doentes que tinham sofrido AVC isquémico há menos de 2 semanas. Dezasseis doentes foram tratados com MSC (grupo de tratamento) e os restantes 15 foram tratados de forma convencional (grupo controlo). Adicionalmente, todos os doentes receberam o tratamento médico convencional e foram reencaminhados para um centro de reabilitação de doentes com AVC. Aos doentes do grupo de tratamento foi colhida medula óssea, seguindo-se o isolamento e crescimento das MSC em laboratório. Cerca de 3 semanas depois, os doentes foram infundidos com as MSC obtidas. O processo foi considerado exequível e seguro, sem efeitos adversos a registar durante a primeira semana após o tratamento. Relativamente aos resultados de segurança a longo-prazo, o número de efeitos adversos foi estatisticamente semelhante nos dois grupos. Em relação à eficácia, o desempenho nas medidas de avaliação funcional global foi semelhante nos dois grupos, indicando que o tratamento com MSC não teve efeito nas medidas de recuperação funcional utilizadas. Não obstante, observaram-se diferenças estatisticamente significativas entre grupos quanto ao desempenho nas medidas de recuperação motora. O grupo tratado com MSC demonstrou melhor desempenho em termos de aptidão motora comparativamente com o grupo controlo, consistente com a análise realizada por ressonância magnética nuclear, que revelou o aumento da atividade cerebral ao nível do córtex motor nos doentes tratados com MSC, comparativamente aos do grupo controlo.

Estes resultados estão de acordo com estudos anteriores, que reportaram também melhorias ao nível motor após administração de MSC derivadas de medula óssea em doentes com AVC e poderão ser importantes no desenvolvimento de futuros estudos neste âmbito, que permitam confirmar a segurança e medir a eficácia deste tipo de tratamento.

 

Referências:

Jaillard A, et al. Autologous Mesenchymal Stem Cells Improve Motor Recovery in Subacute Ischemic Stroke: a Randomized Clinical Trial. Transl Stroke Res. 2020. doi:10.1007/s12975-020-00787-z [online ahead of print]

https://www.sns.gov.pt/noticias/2019/10/28/dia-mundial-do-avc-3/ , consultado a 22 de junho de 2020.