Criança com anemia aplástica grave recupera após transplante de sangue do cordão umbilical

A anemia aplástica é uma doença hematológica rara, que pode ser fatal se não for tratada atempadamente. Nesta doença, o sistema imunitário ataca e destrói as células estaminais da medula óssea, responsáveis pela produção das células do sangue e do sistema imunitário, deixando o doente anémico e vulnerável a infeções e hemorragias. Para além dos casos associados a uma predisposição genética para desenvolver a doença, sabe-se que esta pode ser despoletada, por exemplo, pela exposição a quimio ou radioterapia. No entanto, em grande parte dos casos, não é possível identificar a sua causa. Nos casos mais graves, em que não é possível controlar a doença com agentes imunossupressores, o tratamento passa pela realização de um transplante hematopoiético (transplante de células estaminais hematopoiéticas, formadoras das células do sangue e sistema imunitário), preferencialmente tendo um irmão compatível como dador. No entanto, tal nem sempre é possível. Um artigo recentemente publicado na revista médica Transplantation Proceedings descreve um caso de sucesso do tratamento de anemia aplástica grave recorrendo a sangue do cordão umbilical autólogo (do próprio), armazenado à nascença.

Transplante de sangue do cordão umbilical do próprio trata anemia aplástica grave

O artigo descreve o caso de um menino de 3 anos, sem historial clínico relevante, que se apresentou no hospital com febre e otite. Após uma semana de tratamento com antibiótico, observou-se o aparecimento de erupções cutâneas e petéquias (pequenas manchas vermelhas na pele). Os exames efetuados revelaram níveis baixos de todas as células do sangue − glóbulos brancos, plaquetas e glóbulos vermelhos. Posteriormente, uma biópsia revelou que a medula óssea, onde estas células são produzidas, se encontrava com um número de células estaminais anormalmente baixo. Quando ficou claro, após estabelecido o diagnóstico de anemia aplástica grave, que seria necessário um transplante hematopoiético, os membros da família foram testados quanto à sua compatibilidade com o doente. Os testes revelaram compatibilidade total com a irmã de 7 meses, que, devido à diferença de peso, não foi considerada elegível para doar medula óssea em quantidade suficiente para tratar o irmão em tempo útil. Ao mesmo tempo, os pais informaram a equipa clínica que o menino tinha a sua amostra de sangue do cordão umbilical armazenada. Perante as opções disponíveis, a equipa médica decidiu avançar com o transplante autólogo de sangue do cordão umbilical. No dia do transplante, a amostra foi descongelada e reinfundida no doente. Seguiram-se várias semanas de recuperação, em que se observou o aumento gradual das contagens celulares sanguíneas. As complicações pós‑transplante que surgiram foram tratadas com sucesso. Cerca de 18 semanas após o transplante, a biopsia realizada mostrou uma medula óssea normal, indicando a recuperação total do doente. Mais de um ano e meio depois do transplante, os exames realizados revelaram que a criança se mantinha livre da doença.

A história deste menino não é caso único. Anteriormente, alguns artigos científicos tinham já reportado o tratamento bem-sucedido de crianças com anemia aplástica grave utilizando sangue do cordão umbilical autólogo. Os autores destes artigos são unânimes: tendo em conta os resultados obtidos, o recurso a sangue do cordão umbilical autólogo, quando disponível, deve ser considerado para o tratamento de anemia aplástica adquirida grave. Em Portugal, verificou-se recentemente um caso semelhante. Uma criança com anemia aplástica grave foi tratada, no IPO de Lisboa, recorrendo ao seu sangue do cordão umbilical, previamente armazenado na Crioestaminal. O transplante correu bem e, hoje-em-dia, o menino encontra-se saudável e livre da doença.

 

Referências:

Rosa M, et al. Successful Bone Marrow Recovery After an Immunoablative Regimen With Autologous Cord Blood Transplant in a Child With Idiopathic Severe Aplastic Anemia: A Case Report. Transplant Proc. 2020;52(2):653–656.

Avgerinou G, et al. Successful long-term hematological and immunological reconstitution by autologous cord blood transplantation combined with post-transplant immunosuppression in two children with severe aplastic anemia. Pediatr Transplant. 2019;23(1):e13320.

Sun Y, et al. Autologous cord blood transplantation in children with acquired severe aplastic anemia. Pediatr Transplant. 2019;23(1):e13325.

Buchbinder D, et al. Successful autologous cord blood transplantation in a child with acquired severe aplastic anemia. Pediatr Transplant. 2013;17(3):E104–E107.