Engenharia de tecidos promissora na recuperação após enfarte do miocárdio

Segundo dados divulgados pela Sociedade Portuguesa de Cardiologia, mais de 10 mil portugueses morrem de enfarte do miocárdio anualmente. Os que sobrevivem, podem enfrentar sequelas irreversíveis, como perda de músculo cardíaco, que é substituído por tecido não contrátil semelhante ao de uma cicatriz, bem como alterações estruturais que levam progressivamente a insuficiência cardíaca. Embora várias terapias celulares tenham sido testadas ao longo das últimas décadas, não há ainda nenhuma comprovadamente eficaz na regeneração cardíaca.

Atualmente, encontra-se a decorrer, em Espanha, um ensaio clínico denominado PERISCOPE, que pretende avaliar a segurança do tratamento de doentes que sofreram enfarte do miocárdio utilizando um novo produto de terapia celular designado PeriCord. Este contém, como ingrediente ativo, células estaminais mesenquimais do tecido do cordão umbilical, colocadas numa matriz de pericárdio (membrana exterior do coração), à qual foram previamente removidas todas as células, e que funciona como material de suporte para implantação cirúrgica. O produto final apresenta-se como um retângulo de 16 cm2 de membrana, no qual se encontram as células estaminais mesenquimais, que é aplicado na zona do coração a tratar, sendo fixado nas quatro extremidades com cola cirúrgica. Este ensaio clínico de fase I pretende recrutar 12 doentes com cicatrizes cardíacas não revascularizáveis, que sejam candidatos para revascularização cirúrgica de outras zonas do miocárdio. Adicionalmente ao procedimento convencional de bypass coronário para revascularização miocárdica, será também aplicado PeriCord na zona não-revascularizável. O principal objetivo é avaliar a segurança do tratamento. No entanto, será também efetuada uma avaliação preliminar da eficácia, nomeadamente através do estudo da evolução da zona tratada por ressonância magnética nuclear.

Estudos anteriores tinham já demonstrado a segurança e eficácia deste produto de terapia celular em modelo animal. Neste contexto, quando aplicado na zona lesada do miocárdio, o PeriCord tornou-se vascularizado e enervado e promoveu a revascularização, a redução do tamanho da zona de enfarte e a melhoria da função cardíaca.

Resultados preliminares do primeiro doente tratado com PeriCord indicam segurança

Um artigo recentemente publicado reporta o tratamento do primeiro doente utilizando PeriCord, no âmbito do ensaio PERISCOPE. O doente − um homem de 63 anos − tinha sofrido um enfarte na zona inferior do miocárdio em 2004. Em março de 2019, a sua situação agravou-se, tendo os exames revelado doença coronária com indicação para revascularização do miocárdio através de bypass coronário. Durante a cirurgia, adicionalmente ao procedimento convencional de revascularização, foi aplicado PeriCord na zona de enfarte já cicatrizada. No período de recuperação pós cirúrgico não se observaram efeitos adversos relacionados com a aplicação do produto experimental e, nos três meses seguintes, o doente continuava sem necessidade de qualquer hospitalização. Para além destes resultados, que sugerem que o procedimento é seguro, o estudo por ressonância magnética, três meses após o procedimento, revelou uma diminuição de aproximadamente 9% no tamanho da cicatriz no miocárdio, relativamente ao tamanho inicial, o que sugere uma ação favorável do produto aplicado. Apesar de promissores, estes resultados são, ainda, preliminares. É necessário aguardar pela conclusão deste estudo e de ensaios clínicos adicionais num maior número de doentes para se poder concluir acerca da segurança e eficácia desta abordagem.

 

Referência:

Prat-Vidal C, et al. First-in-human PeriCord cardiac bioimplant: Scalability and GMP manufacturing of an allogeneic engineered tissue graft. EBioMedicine. 2020. 54:102729.

https://spc.pt/2019/10/21/saude-mais-de-10-mil-portugueses-morrem-de-enfarte-do-miocardio-por-ano/