Estudo suporta potencial de células do cordão umbilical na regeneração cardíaca

As doenças cardiovasculares constituem a principal causa de morte em Portugal e no mundo. Para além da prevenção, através da adoção de um estilo de vida saudável e alimentação cuidada, é importante dispor de opções terapêuticas eficazes para o seu tratamento. O recurso a terapias celulares tem sido alvo de intensa investigação científica, como solução capaz de complementar os métodos de tratamento atualmente disponíveis. As células da medula óssea têm sido amplamente testadas em contexto de doença cardíaca, resultando em melhorias na capacidade de bombeamento do coração, diminuição da zona de enfarte, entre outras. Também as células estaminais do tecido do cordão umbilical demonstraram já resultados promissores neste contexto, nomeadamente pela sua capacidade para diminuir a inflamação e estimular a formação de novos vasos sanguíneos. Embora, globalmente, os resultados sejam promissores, está ainda em aberto qual a melhor fonte de células, método e timing de aplicação, e população de doentes que mais poderá beneficiar deste tipo de terapia.

Injeção intramiocárdica de células estaminais ajuda a regenerar o coração

Um enfarte do miocárdio, vulgarmente conhecido como ataque cardíaco, pode conduzir ao desenvolvimento de uma doença designada por Cardiopatia Isquémica Crónica (CIC), devido à morte de células do músculo cardíaco e sua substituição por tecido fibroso não contráctil, semelhante ao de uma cicatriz. Estas alterações podem levar à perda de capacidade de bombeamento de sangue pelo coração e ao aparecimento de sintomas como dificuldade em respirar, dor no peito e fadiga extrema. As intervenções destinadas à recuperação destes doentes pretendem ativar a regeneração do músculo cardíaco e promover a substituição do tecido fibroso não contráctil por células cardíacas contrácteis.

Foram recentemente publicados os resultados de um ensaio clínico que pretendeu testar a segurança e eficácia das células estaminais mesenquimais do tecido do cordão umbilical no tratamento de CIC. O estudo envolveu 54 doentes com CIC, elegíveis para cirurgia de bypass coronário, uma intervenção capaz de melhorar a irrigação sanguínea do coração. Os 16 participantes do grupo controlo foram tratados recorrendo exclusivamente à cirurgia de bypass coronário convencional. Dos restantes, 26 participantes foram ainda tratados com células estaminais do cordão umbilical e 12 receberam células da medula óssea. A administração das células ocorreu durante a cirurgia de bypass coronário, tendo sido feita a sua injeção direta no músculo cardíaco.

Utilizando três técnicas diferentes, os autores começaram por estudar a diferença na capacidade de bombeamento de sangue pelo coração antes do tratamento e um ano após o mesmo. Os doentes tratados com células do cordão umbilical demonstraram um aumento significativo na capacidade de bombeamento do coração em duas das técnicas utilizadas, tendo uma das técnicas evidenciado melhorias significativas também no grupo que recebeu células da medula óssea. Nos doentes do grupo controlo não se observaram diferenças significativas. Seguiu-se a análise das alterações na mobilidade da parede do coração, grau de fibrose e massa muscular cardíaca. Embora as diferenças não tenham sido estatisticamente significativas, os doentes que receberam células estaminais do cordão umbilical demonstraram melhorias mais acentuadas nestes parâmetros, relativamente aos restantes, sugerindo um efeito reparador superior deste tipo de tratamento.

O estudo da área do coração afetada por necrose (processo de morte celular), antes do tratamento e um ano após o mesmo revelou que, embora se tenha observado uma diminuição significativa da área necrótica em todos os grupos (diminuiu 2,3% no grupo controlo, 4,5% no grupo que recebeu células da medula óssea e 7,7% no grupo tratado com células do cordão umbilical), os doentes que receberam células do cordão umbilical exibiram melhorias mais acentuadas.

A cirurgia de bypass coronário conjugada com a administração de células estaminais do tecido do cordão umbilical parece, assim, ser capaz de promover a regeneração cardíaca em doentes com CIC. Tendo também em conta o bom perfil de segurança registado, estas células podem revelar-se fortes candidatas para o desenvolvimento de tratamentos inovadores na área da regeneração cardíaca, sendo, no entanto, indispensável a realização de mais estudos nesse sentido.

Referência:

Ulus AT, et al. Intramyocardial Transplantation of Umbilical Cord Mesenchymal Stromal Cells in Chronic Ischemic Cardiomyopathy: A Controlled, Randomized Clinical Trial (HUC-HEART Trial). Int J Stem Cells. 2020. doi:10.15283/ijsc20075 [online ahead of print]