Injeção local de células estaminais do tecido adiposo permite evitar amputação

Uma irrigação sanguínea insuficiente dos tecidos do nosso organismo pode ter várias causas, sendo a mais frequente o estreitamento do espaço interior dos vasos sanguíneos pela acumulação de placas de gordura. O agravamento dessa situação pode conduzir a uma doença designada isquémia crítica dos membros, uma condição grave, em que a irrigação sanguínea se encontra seriamente comprometida. Esta má irrigação dos tecidos resulta num aporte insuficiente de oxigénio e subsequente morte das células nas zonas afetadas, levando ao aparecimento de úlceras de difícil cicatrização, que podem culminar na amputação do membro afetado, quando as técnicas convencionais de revascularização falham ou estão contraindicadas. Cerca de um terço dos doentes com isquémia crítica dos membros apresenta algum tipo de contraindicação para cirurgia, ficando, desta forma, sem opções terapêuticas e em sério risco de amputação. Na década de 1990 foi introduzido o conceito de angiogénese terapêutica, que é a estimulação da formação de novos vasos sanguíneos como forma de tratamento. Esta foi considerada, desde logo, uma estratégia promissora para o tratamento de doentes com isquémia crítica dos membros não elegíveis para tratamento cirúrgico convencional. Desde então, vários trabalhos de investigação, utilizando células estaminais mesenquimais da medula óssea e do tecido adiposo, têm sido desenvolvidos neste âmbito, com resultados promissores. As propriedades das células mesenquimais isoladas de ambas as fontes são semelhantes, com a vantagem de a colheita de células do tecido adiposo (gordura) ser menos invasiva comparativamente à de medula óssea. Em modelos animais, a administração de células estaminais mesenquimais do tecido adiposo aumentou a formação de novos vasos sanguíneos, constituindo, assim, uma opção promissora para utilização em terapia celular em doentes com isquémia crítica dos membros.

Células estaminais tratam úlceras de doentes com isquémia crítica dos membros

Foi recentemente divulgado um estudo piloto realizado no Japão em que cinco doentes, com idades entre os 28 e os 65 anos, com isquémia crítica dos membros, elegíveis para amputação do membro afetado, foram tratados com células estaminais do tecido adiposo (gordura). As células para tratamento foram colhidas do próprio doente por lipoaspiração, tendo sido depois administradas através de injeção no membro afetado. Os doentes foram avaliados um e seis meses após o tratamento, para registo da evolução do estado da ferida e eventuais complicações que pudessem surgir. Os investigadores verificaram que houve melhorias significativas na irrigação sanguínea do membro afetado, durante o período de seguimento. Três doentes ficaram completamente curados e os restantes melhoraram significativamente, não se tendo verificado necessidade de amputação em nenhum dos casos. Após o tratamento com células estaminais, observou-se uma redução significativa do tamanho das úlceras e do nível de dor, tanto na avaliação após um mês, como na realizada seis meses depois do tratamento. Desta forma, foi possível reduzir ou, em alguns casos, descontinuar, a toma de analgésicos em todos os doentes. Seis meses após o tratamento, a capacidade de locomoção, demonstrada pelo aumento da distância percorrida em seis minutos, também melhorou significativamente. Foram ainda investigados os mecanismos responsáveis pelas melhorias observadas, tendo-se concluído que as células estaminais promoveram a regeneração dos tecidos danificados através da estimulação da formação de novos vasos sanguíneos e supressão da inflamação.

Embora estejamos perante resultados preliminares, com poucos doentes e sem grupo controlo, os autores afirmam que esta terapêutica pode representar uma alternativa segura e eficaz para doentes com isquémia crítica dos membros em risco de amputação, e defendem a realização de mais estudos que permitam confirmar estes resultados.

Referência:

Katagiri T, et al. Therapeutic angiogenesis using autologous adipose-derived regenerative cells in patients with critical limb ischaemia in Japan: a clinical pilot study. Sci Rep. 2020 Sep 29;10(1):16045.