Multiplicação de células do sangue do cordão umbilical em laboratório permite aumentar número de células transplantadas

Desde o primeiro transplante, em 1988, o sangue do cordão umbilical tem-se afirmado como uma importante fonte de células estaminais para transplante hematopoiético, capaz de tratar doenças hemato-oncológicas, imunodeficiências, doenças metabólicas, entre outras. O maior desafio da transplantação de sangue do cordão umbilical prende-se com o número de células de algumas unidades, que poderá ser insuficiente para tratar doentes com maior peso corporal, o que habitualmente resulta num maior tempo de recuperação hematológica. Nestes casos, uma estratégia que tem vindo a ser utilizada com sucesso nos últimos 20 anos é a transplantação de duas unidades de sangue do cordão umbilical, em vez de uma só. Outra solução que tem vindo a ser investigada é a expansão – ou multiplicação – das células do sangue do cordão umbilical em laboratório antes do transplante. Esta abordagem permite obter um grande número de células estaminais para transplante, a partir de um número inicial relativamente pequeno. Neste contexto, diferentes metodologias estão a ser testadas, tendo já evidenciado resultados promissores.

Resultados favoráveis colocam métodos de multiplicação de sangue do cordão umbilical mais perto de chegar à clínica

Uma das metodologias em estudo, que se destaca pelos bons resultados obtidos nos últimos anos, utiliza a molécula nicotinamida como base da sua tecnologia de expansão. O produto resultante da expansão designa-se Omidubicel. Este ano, foram anunciados resultados muito positivos do desempenho do Omidubicel num ensaio clínico de fase III, que incluiu 125 doentes com doenças malignas do sangue, tratados em mais de 50 centros de transplantação nos EUA, América do Sul, Europa e Ásia. Neste estudo, observou-se que o tempo médio de recuperação hematológica após o transplante foi significativamente menor nos doentes que receberam Omidubicel, comparativamente aos que receberam sangue do cordão umbilical não expandido, associado a menos complicações e menor tempo de hospitalização após o transplante. Prevê-se que o pedido de licença para disponibilização desta metodologia seja submetido à agência americana FDA ainda este ano.

Outro método de expansão do sangue do cordão umbilical que tem apresentado bons resultados utiliza uma molécula designada UM171 e foi desenvolvido no Canadá. Numa publicação de janeiro deste ano, na revista The Lancet Haematology, descrevem-se os resultados do ensaio clínico de fase I/II, em que 22 adultos com doenças hemato-oncológicas foram transplantados com sucesso, usando sangue do cordão umbilical expandido com esta molécula. Neste estudo, tanto o tempo de recuperação hematológica, como as taxas de sobrevivência e de complicações pós-transplante revelaram-se muito favoráveis. Recentemente, o mesmo grupo de investigadores publicou um caso de sucesso da utilização de sangue do cordão umbilical expandido para transplantar um homem de 29 anos, com 80 kg de peso, que sofria de anemia aplástica severa. O doente foi inicialmente tratado com imunossupressores, mas acabou por ser referenciado para transplante após ter recebido 58 transfusões sanguíneas. Não tendo sido possível identificar um dador de medula óssea compatível, o doente foi transplantado com uma unidade de sangue do cordão umbilical expandida em laboratório, encontrando-se bem e livre da doença há mais de 2 anos.

Estes resultados indicam que diferentes metodologias de multiplicação das células do sangue do cordão umbilical em laboratório têm obtido resultados muito favoráveis em ensaios clínicos, estando cada vez mais perto de serem aprovadas para utilização clínica, o que permitirá escolher, para cada doente, a unidade de sangue do cordão umbilical com grau de compatibilidade mais adequado, ficando ultrapassada a questão do número de células inicialmente armazenado.

 

Referências:

Claveau JS, et al. Single UM171-expanded cord blood transplant can cure severe idiopathic aplastic anemia in absence of suitable donors. Eur J Haematol. 2020. 105(6):808-811.

Cohen S, et al. Hematopoietic stem cell transplantation using single UM171-expanded cord blood: a single-arm, phase 1-2 safety and feasibility study. Lancet Haematol. 2019. S2352-3026(19)30202-9.

https://investors.gamida-cell.com/news-events/press-releases/news-release-details/gamida-cell-announces-positive-topline-data-phase-3, acedido a 26 de novembro de 2020.

https://investors.gamida-cell.com/news-events/press-releases/news-release-details/gamida-cell-announces-omidubicel-secondary-endpoints, acedido a 26 de novembro de 2020.