Novo tratamento para Lúpus Eritematoso Sistémico com células estaminais

O Lúpus Eritematoso Sistémico (LES) é uma doença autoimune caracterizada pela produção de anticorpos contra o próprio organismo (auto-anticorpos), que podem danificar vários órgãos, incluindo rins, pulmões e sistema nervoso. As suas manifestações clínicas diferem muito de doente para doente e dependem, em grande medida, dos órgãos afetados. Alguns dos sintomas mais comuns são fadiga, febre, dores nas articulações e o típico eritema malar, uma lesão cutânea na face que faz lembrar as asas de uma borboleta. O LES é uma doença rara que afeta cerca de 0,07% da população portuguesa, sobretudo mulheres em idade reprodutiva, e tem um impacto significativo na sua qualidade de vida.

Pode apresentar-se como uma doença de evolução progressiva, com persistência constante dos sintomas ou, por outro lado, pode evoluir por surtos (fases de agudização), com exacerbação dos sintomas, intercalados com períodos de remissão, em que a doença se encontra inativa. A terapêutica convencional inclui medicação com corticosteroides e anti-inflamatórios não esteroides em combinação com agentes imunossupressores. No entanto, cerca de um terço dos doentes sofre recaídas ou não responde aos tratamentos convencionais.

Células estaminais mesenquimais eficazes no tratamento de Lúpus Eritematoso Sistémico

A transplantação hematopoiética, sobretudo com medula óssea, tem sido utilizada para tratar doentes com as formas mais agressivas de LES. Dado que este procedimento acarreta alguns riscos, investigadores da China, EUA e França levaram a cabo um estudo para testar a eficácia da administração de células estaminais mesenquimais (MSC, de Mesenchymal Stem Cells) em doentes com LES refratário severo, em alternativa à transplantação hematopoiética. Pela sua capacidade para regular o sistema imunitário, os investigadores consideram que as MSC poderão atenuar de forma significativa a resposta autoimune característica do LES. Dos 81 doentes envolvidos no estudo, 22 receberam MSC de medula óssea e os restantes 59 receberam MSC de tecido do cordão umbilical. Os doentes foram seguidos durante, pelo menos, 5 anos após o tratamento experimental.

Numa recente publicação, os autores referem que os resultados deste estudo apontam para que o tratamento de LES refratário severo utilizando MSC seja mais seguro e eficaz do que recorrendo a transplantação hematopoiética. A percentagem de doentes que entraram em remissão completa após tratamento com MSC foi superior e, destes, o número de doentes que tiveram recaídas foi menor. A pontuação do índice de atividade da doença diminuiu e permaneceu significativamente mais baixa durante os 5 anos de seguimento destes doentes, o que indica uma melhoria dos sintomas durante este período. O tratamento com MSC permitiu a redução da dose de imunossupressores feita de forma crónica e promoveu melhorias na função pulmonar, renal e hematológica em vários doentes. Outra vantagem da utilização de MSC, comparativamente à transplantação hematopoiética, é a redução da utilização de agentes imunossupressores na altura do tratamento, tornando os doentes menos suscetíveis a infeções. Efetivamente, as taxas de infeção decorrentes deste tratamento foram inferiores às reportadas no caso de transplantação hematopoiética.

Os resultados positivos deste estudo demonstram que o tratamento com MSC de medula óssea ou tecido do cordão umbilical têm eficácia comparável, senão superior, à transplantação hematopoiética, em doentes com LES refratário, e com menos efeitos adversos associados. A administração de MSC pode, então, vir a constituir uma alternativa terapêutica mais segura e eficaz para o tratamento das formas mais agressivas de LES e permitir a estes doentes um melhor controlo da doença.

 

 

Referências:

Wang D, et al. A Long-Term Follow-Up Study of Allogeneic Mesenchymal Stem/Stromal Cell Transplantation in Patients with Drug-Resistant Systemic Lupus Erythematosus. Stem Cell Reports. 2018 Feb 21. pii: S2213-6711(18)30055-9.

http://www.spreumatologia.pt/doencas/lupus-eritematoso-sistemico