Pode a nossa gordura ser aproveitada para o tratamento de algumas doenças?

Neste momento, há cerca de 300 ensaios clínicos registados cujo objetivo é testar a utilização do tecido adiposo (gordura) extraído do corpo humano em aplicações de medicina regenerativa. Esta abordagem inovadora tem sido investigada para doenças que, até à data, apresentam estratégias terapêuticas insuficientes, nomeadamente doenças musculoesqueléticas, cardiovasculares e autoimunes.

A gordura é recolhida de forma simples e minimamente invasiva, durante um procedimento de lipoaspiração ou lipoescultura, sendo posteriormente processada em laboratório, onde poderá passar por um processo de expansão – ou multiplicação – celular. Depois do processamento laboratorial, é possível criopreservar (congelar a temperaturas muito baixas) o produto obtido, para que possa estar disponível para posterior utilização. Neste tipo de terapia, ainda em contexto experimental, as células do tecido adiposo isoladas são introduzidas no organismo, onde vão exercer a sua ação terapêutica, que está relacionada com as suas propriedades e com a natureza da doença em causa.

Propriedades das células do tecido adiposo

A gordura presente no nosso corpo é muito rica em células estaminais mesenquimais. Estas células têm características particulares, que as tornam ideais para o tratamento de diversas doenças:

– podem ser multiplicadas em laboratório;

– convertem-se em vários tipos de células, como as do osso, cartilagem e músculo;

– produzem moléculas capazes de estimular a regeneração de vários órgãos;

– têm a capacidade de migrar para o local da doença/lesão;

– conseguem regular a atividade do sistema imunitário, função muito importante no tratamento de doenças autoimunes.

Tratamentos com tecido adiposo em fase de ensaios clínicos

Dos cerca de 300 ensaios clínicos registados no âmbito da utilização de tecido adiposo em medicina regenerativa, a grande maioria – cerca de 80% – contempla a utilização autóloga (com células do próprio indivíduo), em que há compatibilidade total entre as células administradas e o doente. Este campo da medicina regenerativa é relativamente recente e está em expansão, verificando-se que aproximadamente um terço dos ensaios clínicos se encontram, de momento, em fase de recrutamento de doentes, ou prestes a começar esta fase. Algumas doenças tratadas no âmbito destes estudos experimentais são a osteoartrite (conhecida também apenas por artrite), fraturas ósseas, feridas crónicas, disfunção eréctil, fístulas perianais, enfarte do miocárdio, e ainda doenças autoimunes, como esclerose múltipla, artrite reumatoide e lúpus eritematoso sistémico.

 

Medicamentos aprovados e em fase de aprovação para entrada no mercado

Os progressos científicos nesta área levaram já à aprovação, por parte da Agência Europeia do Medicamento (EMA), de um produto terapêutico, designado Alofisel®, à base de células estaminais do tecido adiposo, destinado ao tratamento de fístulas perianais decorrentes da doença de Crohn. Outro medicamento com células estaminais do tecido adiposo, designado Habeo™, está próximo de chegar ao mercado e pretende tratar doentes com problemas nas mãos devido a esclerodermia, uma doença do foro reumático e autoimune que afeta a pele, entre outros órgãos, e pode tornar-se muito incapacitante.

 

Referências:

https://clinicaltrials.gov/, acedido a 20-09-2019.

Eder C e Wild C. Technology forecast: advanced therapies in late clinical research, EMA approval or clinical application via hospital exemption. J Mark Access Health Policy. 2019. 19;7(1):1600939.

Si Z, et al. Adipose-derived stem cells: Sources, potency, and implications for regenerative therapies. Biomed Pharmacother. 2019 Jun;114:108765.