Resultados favoráveis do tratamento da doença de Crohn com células estaminais hematopoiéticas

Um doente com uma forma agressiva de doença de Crohn recuperou da doença após tratamento experimental com células estaminais hematopoiéticas autólogas
A doença de Crohn é uma doença inflamatória crónica do tubo digestivo. As causas desta doença permanecem desconhecidas, mas sabe-se que é ativada uma resposta imunológica em que as células do sistema imunitário atacam as células do próprio intestino, causando inflamações, diarreias, cansaço, perda de peso, entre outras complicações. Os sintomas da doença podem ser leves ou graves. No entanto, nos casos mais graves, os tratamentos disponíveis não conseguem controlar a evolução da doença. Atualmente a prevalência estimada em Portugal é de 73 por 100 000 habitantes.

Tratamento experimental consegue reiniciar o sistema imunitário e curar doente com doença de Crohn

Uma notícia publicada recentemente num jornal Espanhol relata o caso de um jovem submetido a um tratamento experimental para tratamento da doença de Crohn.
Javier Casado foi diagnosticado com doença de Crohn aos 12 anos (idade em que a doença aparece frequentemente na sua forma mais agressiva). Aos 15 anos já tinha sido submetido a uma colostomia (perfuração do abdómen para ligar o intestino a um saco externo para evacuar as fezes) e, entre cirurgias e cortisona, a doença manteve-se controlada até aos 24 anos. Numa consulta de acompanhamento detetou-se que a doença estava a evoluir muito rapidamente. Os médicos explicaram ao Javier que seria necessário remover-lhe a totalidade do colon, que teria de usar um saco coletor para o resto da vida e esperar que a doença não se espalhasse a outros órgãos. O doente recusou esta opção. Foi então que lhe falaram do tratamento experimental que estava a ser realizado no Hospital Clínic de Barcelona. Explicaram-lhe que era um tratamento arriscado, mas que estava a funcionar bem com outros doentes.
O tratamento consistia na colheita de células estaminais da medula óssea do doente, seguida da destruição do seu sistema imunitário através de quimioterapia, seguindo-se o transplante das células estaminais (anteriormente recolhidas) para gerar um novo sistema imunitário, sem a memória do anterior, na esperança de que não atacasse o organismo.
Javier foi incluído no estudo e dez dias após o transplante o seu sangue já tinha um nível normal de linfócitos, plaquetas e outras células do sistema imunitário. Este novo sistema não tinha memória e Javier teve por isso de ser vacinado de novo. Durante este processo sofreu uma infeção grave, mas recuperou. Quatro anos e meio após o transplante a doença desapareceu por completo. O Javier tem agora uma vida normal e refere que pode fazer coisas que antes eram impossíveis.
O grupo da Dra. Elena Ricart, médica responsável pelo estudo, prevê publicar este ano os resultados do estudo, que incluiu mais 30 doentes. Segundo a mesma, os resultados demonstram que um ano após o tratamento a doença tinha entrado em remissão em 90% dos doentes, sem necessidade de recorrer a fármacos. Aos poucos, alguns doentes voltaram a ter alguns sintomas, mas muito mais suaves do que antes do transplante. Em 25% dos doentes (incluindo o Javier) após 4 anos e meio, a doença tinha desaparecido por completo. No entanto, apesar dos resultados positivos, trata-se de um tratamento com algum risco. Um dos doentes tratados sofreu uma infeção grave enquanto estava imunossuprimido e morreu apesar de todos os esforços para salvar a sua vida.
Este testemunho demonstra o potencial do transplante autólogo de células estaminais hematopoiéticas para reiniciar o sistema imunitário, constituindo uma esperança para os muitos doentes com doenças autoimunes em todo o mundo. Esta abordagem está a ser testada noutras doenças autoimunes, como a esclerose múltipla por exemplo, para a qual também têm sido descritos alguns resultados favoráveis. No entanto, é necessário continuar a investigar para compreender porque é que este tratamento só tem sucesso em alguns casos e se conseguir uma terapêutica mais eficaz e sem riscos.

Fonte:
http://elpais.com/elpais/2016/07/05/ciencia/1467713563_975269.html