Sangue do cordão umbilical autólogo no tratamento do autismo

Atualmente, as Perturbações do Espetro do Autismo (PEA) afetam cerca de 60 em cada 10.000 crianças em todo o mundo e incluem um conjunto heterogéneo de disfunções de ordem neurológica, caracterizadas por alterações no normal desenvolvimento da criança, nomeadamente ao nível da comunicação, linguagem, comportamento e interação social. Pensa-se que os sintomas das PEA possam estar associados a uma falha na comunicação integrativa entre várias áreas do cérebro e o seu aparecimento se deve à conjugação de uma multiplicidade de fatores, relacionados com predisposição genética, exposição a determinados estímulos ambientais e desregulação imunológica. A incidência das PEA tem vindo a aumentar ao longo das últimas décadas e estima-se que, em Portugal, o autismo afete cerca de 1 em cada 1.000 crianças em idade escolar. Apesar de serem feitas algumas intervenções ao nível comportamental, que são utilizadas para melhorar os sintomas associados às PEA, não existe atualmente cura para estas disfunções.

Estudo demonstra que administração de sangue do cordão umbilical é segura em crianças autistas

Foram recentemente publicados, na revista científica Stem Cells Translational Medicine, os resultados de um ensaio clínico cujo objetivo foi avaliar se a administração de sangue do cordão umbilical autólogo (do próprio) poderia atenuar os sintomas de autismo em crianças. Este estudo decorreu durante 49 semanas e envolveu 29 crianças com PEA com idades compreendidas entre os 2 e os 7 anos. Os autores referem ter inicialmente observado melhorias no grupo que recebeu células estaminais, comparativamente com o grupo placebo, relativamente à pontuação obtida na Escala de Comportamento Adaptativo de Vineland, um teste comummente utilizado para avaliar diversas competências, nomeadamente ao nível da comunicação, socialização, função motora e autonomia. Embora, em termos estatísticos, esta melhoria tenha acabado por se revelar não significativa, os autores referem que a tendência observada para uma melhoria no grupo que recebeu células estaminais vem ao encontro dos resultados obtidos por investigadores da Universidade de Duke2, nos EUA, num ensaio clínico que também testou a administração de sangue do cordão umbilical autólogo a crianças com PEA. Os autores concluíram que o procedimento se demonstrou totalmente seguro e foi bem tolerado pelas crianças com PEA, e recomendam a realização de mais estudos para confirmação do potencial deste tipo de terapia em crianças com PEA.

Em comunicado de imprensa, o instituto Sutter Health, responsável pelo ensaio clínico, informou que os pais que emitiram opinião acerca do estudo demonstraram grande satisfação relativamente às melhorias que observaram nos seus filhos. Autonomia, compreensão global da linguagem, comunicação e socialização foram algumas das competências em que os pais referem ter observado claras melhorias.

 

Referências:

https://www.prnewswire.com/news-releases/cord-blood-stem-cell-study-shows-promise-for-autism-300595157.html?elqTrackId=d2f3f6218a4340f9b9c7caaac322692f&elq=5495514762f44610b38a3b760ad9e341&elqaid=21321&elqat=1&elqCampaignId=10613

1- Chez M, et al. Safety and Observations from a Placebo-Controlled, Crossover Study to Assess Use of Autologous Umbilical Cord Blood Stem Cells to Improve Symptoms in Children with Autism. Stem Cells Transl Med. 2018 Feb 6. doi: 10.1002/sctm.17-0042.

2- Dawson G, et al. Autologous Cord Blood Infusions Are Safe and Feasible in Young Children with Autism Spectrum Disorder: Results of a Single-Center Phase I Open-Label Trial. Stem Cells Transl Med. 2017 May;6(5):1332-1339.