Terapia com células estaminais poderá ajudar doentes em risco de amputação

A doença arterial periférica é causada pelo estreitamento das artérias que irrigam o corpo, na maioria das vezes pela acumulação de placas de gordura nas paredes dos vasos (aterosclerose), caracterizando-se pelo aporte insuficiente de oxigénio aos membros afetados. Tem como principal sintoma dor nas pernas ao caminhar, que alivia com o repouso. Estima-se uma prevalência de 3-10%, com um aumento significativo para 15-20% na população com mais de 70 anos. A progressão desta doença pode levar à isquémia crítica dos membros, uma condição muito grave, em que a irrigação sanguínea está seriamente comprometida. Os doentes apresentam dor mesmo em repouso e feridas que não cicatrizam, podendo levar a consequências devastadoras, como a amputação dos membros afetados.

A abordagem terapêutica inicial inclui o controlo dos fatores de risco, como o tabagismo, hipertensão, diabetes e colesterol, e a realização de exercício físico. Outras medidas, farmacológicas e cirúrgicas, poderão ser tomadas em quadros mais graves da doença. Nos doentes acamados ou em cadeira de rodas, que não tenham a possibilidade de se levantar, está contraindicada a revascularização por via cirúrgica, deixando estes doentes sem alternativas terapêuticas e em risco de amputação.

Encontram-se em estudo novas formas de tratamento para a recuperação destes doentes utilizando células estaminais mesenquimais (MSC, de Mesenchymal Stem Cells). Estas têm-se demonstrado seguras e com um enorme potencial regenerativo em ensaios clínicos para o tratamento de várias doenças.

Células estaminais do cordão umbilical promovem revascularização

Um estudo recentemente publicado na revista científica Stem Cells and Development demonstrou que é possível melhorar a irrigação de um membro afetado por isquémia (falta de oxigénio nos tecidos) utilizando MSC. Os investigadores trataram um conjunto de animais com isquémia crítica do membro inferior injetando células estaminais diretamente no músculo da perna afetada. Aos ratinhos do grupo controlo foi administrada uma solução salina. Os animais tratados com células estaminais demonstraram uma recuperação significativa da irrigação sanguínea comparativamente aos do grupo controlo. Estas melhorias deveram-se ao aumento do número de vasos sanguíneos, potencialmente promovido pela administração de células estaminais. Ambos os tipos de células estaminais testadas neste estudo – da medula óssea ou do tecido do cordão umbilical – induziram melhorias significativas nos animais tratados, tendo as células do cordão umbilical apresentado eficácia superior. Estes resultados estão de acordo com os estudos in vitro previamente realizados, em que se observou que as MSC do cordão umbilical possuíam capacidade proliferativa, migratória e de indução da formação de vasos sanguíneos superior às da medula óssea.

É fundamental dar continuidade a este trabalho, nomeadamente através da realização de ensaios clínicos, no sentido de avaliar a segurança e eficácia da terapia com células estaminais do tecido do cordão umbilical numa população de doentes. Esta terapia celular pode vir a representar uma esperança no tratamento de doença arterial periférica, sobretudo para os doentes em estado grave.

Referências:

Wang Z, et al. Umbilical Cord-Derived Mesenchymal Stem Cells Relieve Hind limb Ischemia by Promoting Angiogenesis in Mice. Stem Cells Dev. 2019. doi: 10.1089/scd.2019.0115. [Epub ahead of print]

Ferreira MJ, et al. Doença arterial periférica. Rev Port Clin Geral. 2010. 26:502-9.