Terapia com células estaminais com potencial para ajudar a tratar a doença de Parkinson

A doença de Parkinson é a segunda doença neurodegenerativa mais comum, estimando-se que afete 180 por cada 100.000 habitantes em Portugal. Surge geralmente entre os 50 e os 80 anos de idade e caracteriza-se pela morte de neurónios de uma região do cérebro designada substantia nigra. Os sintomas, que incluem tremores, rigidez, lentidão, desequilíbrio e distúrbios do sono, conduzem progressivamente à perda da qualidade de vida dos doentes. A medicação atualmente utilizada para tratar esta doença neurodegenerativa crónica destina-se essencialmente ao alívio dos sintomas, não permitindo travar a progressão da doença. Com o intuito de impedir a morte de neurónios e, consequentemente, a progressão da doença, têm vindo a ser investigadas outras soluções terapêuticas, nomeadamente o uso de células estaminais mesenquimais, pela sua capacidade de migrar para tecidos danificados e promover a sua regeneração, entre outras. Estas células podem ser obtidas, por exemplo, a partir de medula óssea, tecido adiposo e tecido do cordão umbilical.

Células estaminais melhoram sintomas e saúde mental de doentes com doença de Parkinson

Um exemplo dos esforços que estão a ser empreendidos neste sentido é um estudo, recentemente publicado, em que um grupo de 12 doentes com doença de Parkinson, em média há 7 anos, com idades compreendidas entre os 29 e os 65 anos, foram tratados com células estaminais mesenquimais retiradas da sua própria medula óssea, para além da medicação convencional. Os resultados obtidos foram comparados com os de um grupo de 11 doentes com doença de Parkinson, com uma distribuição de idades, sexo e estádio da doença semelhantes ao do grupo de tratamento, tratados recorrendo apenas à medicação convencional. Os doentes do grupo de tratamento receberam 3 tratamentos com células estaminais, com 7 dias de intervalo, e foram avaliados 1 e 3 meses depois, quanto à evolução dos sintomas motores e não motores da doença de Parkinson. Foi possível observar, nestes doentes, uma redução de 44% na pontuação da escala de depressão de Hamilton, o que indica melhorias significativas no humor e diminuição do estado depressivo. Outros efeitos positivos do tratamento experimental incluíram a diminuição da sonolência sentida durante o dia e aumento significativo da qualidade de vida, avaliada através de um questionário específico para doentes com doença de Parkinson. Estas melhorias na saúde mental, sonolência e qualidade de vida foram observadas um mês após o tratamento experimental e mantinham-se 3 meses depois.

Os testes usados para avaliar a evolução dos sintomas motores permitiram observar algumas melhorias nos doentes que receberam células estaminais, que não se observaram no grupo tratado apenas com medicação convencional, o que pode indicar um efeito positivo das células estaminais mesenquimais nos sintomas motores da doença de Parkinson.

Tendo em conta estes resultados, conclui-se que as células estaminais mesenquimais podem ajudar a melhorar os sintomas motores e não motores da doença de Parkinson. Contudo, os autores sublinham que estes resultados, embora encorajadores, são preliminares, sendo imperiosa a realização de estudos com maior número de doentes, controlados com grupo placebo e com tempo de seguimento mais longo, para que seja possível retirar conclusões acerca da eficácia deste tratamento.

 

Referências:

Boika, et al. Mesenchymal stem cells in Parkinson’s disease: motor and nonmotor symptoms in the early posttransplant period. Surg Neur Int. 2020. 12:1-8.

Cabreira e Massano. Doença de Parkinson: Revisão Clínica e Atualização. Acta Med Port. 2019. 32(10):661–670