Transplante autólogo de sangue do cordão umbilical após leucemia mielóide aguda secundária ao tratamento de um neuroblastoma

O neuroblastoma é o tumor mais frequente durante os primeiros anos de vida, surgindo frequentemente numa glândula suprarrenal, mas podendo desenvolver‑se noutras localizações. A leucemia aguda (LA) secundária ao tratamento do neuroblastoma é geralmente resistente ao tratamento, com mau prognóstico, podendo o transplante com células estaminais possibilitar sobrevida de longa duração.

Foi recentemente publicado o caso de uma criança que, na sequência ao tratamento de um neuroblastoma, apresentou um quadro clínico de LA, e que após transplante não relacionado de sangue de cordão umbilical (SCU) para tratar a LA, desenvolveu perda do enxerto, com um quadro clínico crítico, necessitando de terapêutica celular de resgate para recuperação hematopoiética.

A menina, com 4 anos de idade, apresentou um neuroblastoma primário em estádio 4, na glândula suprarrenal direita, com metástases ósseas e invasão da medula óssea, tendo sido submetida a quimioterapia, cirurgia e transplante autólogo com células estaminais do sangue periférico. Para além disso, fez radioterapia no abdómen e ossos do lado esquerdo do crânio. Depois de confirmado o diagnóstico de LA pós-neuroblastoma, a menina foi submetida a quimioterapia e transplante não relacionado de SCU, tendo sido feita profilaxia para a doença do enxerto contra o hospedeiro. Este transplante não foi bem‑sucedido, tendo a criança desenvolvido febre, choque séptico com lesões cutâneas dolorosas, insuficiência renal e perda do enxerto. A situação tornou‑se progressivamente mais crítica e com prognóstico muito reservado. Como o seu SCU (criopreservado à nascença) se encontrava disponível, a criança foi submetida a transplante autólogo de SCU (38 dias após o transplante não relacionado). Este tratamento permitiu a recuperação hematopoiética completa, acompanhada de remissão da leucemia. Após o transplante, o estado clínico da menina estabilizou gradualmente, embora a recuperação tenha sido lenta. A mais recente contagem hematológica mostrou valores adequados de leucócitos, neutrófilos, plaquetas e hemoglobina. Após o transplante autólogo de SCU, os estudos efetuados à medula óssea apresentaram resultados normais e mais de 5 anos após este transplante, a criança encontra-se livre de neuroblastoma/leucemia sem células malignas detetáveis. Segundo os autores deste artigo científico, estes resultados sugerem que o transplante autólogo de SCU após tratamentos com doses elevadas de quimioterapia e/ou radioterapia pode ser uma estratégia de cura para certas neoplasias hematológicas ou tumores sólidos metastáticos.

Referência:

Long-Term Cancer-Free Survival after Infusion of Autologous Cord Blood Cells for Rejection-Unrelated Cord Blood Graft After Myeloablative Conditioning for t-MDS: A Case Report. Chen WT, Fang LH, Chen RL. Medicine (Baltimore). 2015 Feb;94(5):e438. doi: 10.1097/MD.0000000000000438