Transplante Autólogo de Sangue do Cordão Umbilical como Terapêutica de Resgate para Falência de Enxerto após Transplante Haploidêntico em Leucemia Mieloide Aguda

O transplante de sangue do cordão umbilical (SCU) tem-se mostrado útil em oncologia pediátrica, tendo o transplante autólogo de SCU em doenças hematológicas malignas sido historicamente evitado por receio de contaminação por clones malignos. A falência do enxerto contribui de modo importante para a morbilidade e mortalidade após o transplante hematopoiético alogénico, juntando-se ao mau prognóstico das leucemias de alto risco. Um novo transplante com dador diferente tem sido uma das abordagens mais amplamente empregues para ultrapassar aquele problema. Se estiver disponível, o SCU autólogo constitui também uma fonte viável para estes doentes.

Transplante autólogo de sangue do cordão umbilical, como alternativa viável e segura para falência de enxerto após transplante haploidêntico em Leucemia Mieloide Aguda.

Foi recentemente publicado na revista Pediatric Blood Cancer um caso de falência de enxerto de uma criança do sexo feminino, de 7 anos de idade, com diagnóstico de leucemia mieloide aguda (LMA). A menina foi submetida a um regime de quimioterapia, tendo a avaliação no dia 21 revelado a primeira remissão completa. Por se tratar de uma leucemia de alto risco, foi realizado transplante haploidêntico, 5 meses após o diagnóstico. O pai da criança foi o dador e a fonte usada foi o sangue periférico mobilizado (infusão de 10,5 × 106 células CD34+/Kg), com depleção de CD3/CD19. A análise ao sangue periférico no dia 13 mostrou 90% de quimerismo do dador. No entanto, o estudo de quimerismo no dia 23 revelou falência do enxerto (100% recetor). Um segundo transplante haploidêntico foi realizado 5 semanas após o primeiro (mesmo dador: 10,3 × 106 células CD34+/Kg). O aspirado de medula óssea no dia 18 mostrou 99% quimerismo do recetor, evidenciando nova falência do enxerto. Dado que a criança enfrentava uma situação clínica cada vez mais crítica devido a várias infeções graves, e depois de ter sido afastada a possibilidade de um terceiro transplante haploidêntico, foi considerada a possibilidade de um transplante de SCU. A biópsia da medula óssea mostrou uma hipoplasia severa e uma vez que a criança disponha do seu próprio SCU (armazenado à nascença), 4 semanas após o segundo transplante haploidêntico, foi resgatada pela infusão autóloga de SCU (1 × 105 células CD34+/Kg). A análise citogenética e molecular descartou a presença de clones malignos no SCU. No dia 75 após o transplante autólogo de SCU a criança teve alta. O último acompanhamento, 14 meses após a infusão de SCU e 21 meses após o diagnóstico de LMA, revelou que permanecia em remissão completa. Segundo os autores deste artigo, este caso sugere que o transplante autólogo de SCU é uma alternativa viável e segura após falência do enxerto, podendo ser considerada uma opção de tratamento de primeira linha em diversos cenários de falência do enxerto.