Criopreservação

Entenda em que consiste o processo da Criopreservação,
qual a sua importância e quais as diferenças
entre os Bancos Familiares e os Bancos Públicos

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O que é a criopreservação das células estaminais e para que serve

A criopreservação permite que as células estaminais estejam disponíveis a qualquer momento, podendo ser facilmente descongeladas, para utilização em caso de necessidade, no tratamento de várias doenças.

No caso das células do sangue do cordão umbilical, estas são já usadas no tratamento de mais de 80 doenças. No que se refere às células do tecido do cordão umbilical, estas têm um enorme potencial terapêutico tendo já sido usadas para combater a DECH.

A criopreservação consiste em conservar as células por longos períodos de tempo, a baixas temperaturas (-196º C), sem que estas percam a sua viabilidade. Atualmente, as células estaminais do sangue e do tecido do cordão umbilical são armazenadas durante 25 anos, pois é este o período em que, de acordo com estudos recentes, a viabilidade celular é assegurada.

Sabia que…

As primeiras células estaminais do sangue do cordão umbilical foram criopreservadas no final dos anos 80. É com essas células estaminais que são feitos os estudos de viabilidade que demonstram a viabilidade de manter células criopreservadas durante 25 anos. À semelhança de outras células e tecidos que se têm mantido nas mesmas condições durante décadas, é provável que as células do sangue do cordão umbilical se mantenham viáveis durante muito mais tempo. As células e tecidos mantidos em contentores abastecidos por azoto líquido a -196ºC mantêm-se viáveis por longos períodos (em teoria, para sempre).

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Vantagens e limitações

Criopreservar as células estaminais do sangue do cordão permite ter acesso a uma opção de tratamento que tem várias vantagens em comparação com as fontes alternativas – medula óssea e sangue periférico.

Entre as principais vantagens destacam-se:

  • Maior aceitabilidade no grau de compatibilidade HLA entre dador e doente.
  • Menor risco de doença do enxerto contra hospedeiro (GVHD), uma complicação grave que pode ocorrer após um transplante hematopoiético.
  • Disponibilidade imediata das células para transplantação.
  • O sangue do cordão umbilical é facilmente colhido após o parto, num processo indolor que não apresenta qualquer risco para a mãe ou para o bebé.

É importante referir que as células estaminais do sangue do cordão também têm limitações:

  • O número de células estaminais recolhidas pode ser inferior ao necessário para um tratamento.
    O número de células estaminais depende do volume de sangue existente no cordão umbilical e, consequentemente, é limitado. Dependendo da doença, do peso do doente e do grau de compatibilidade, a amostra poderá não conter suficientes células estaminais. No entanto, vários grupos de investigação estão a desenvolver técnicas que permitem aumentar o número de células, de forma a ultrapassar esta limitação.
  • Maior tempo de recuperação hematológica após o transplante, quando comparado com a medula óssea ou o sangue periférico.
    Esta desvantagem prende-se com o menor número de células estaminais disponíveis no sangue do cordão.
Sangue do cordão umbilical Medula óssea
DISPONIBILIDADE Imediata, as células estaminais do sangue do cordão umbilical ficam criopreservadas, prontas a ser utilizadas. Tempo de espera pode ser mais longo, se for necessário encontrar um dador compatível.
NÚMERO DE CÉLULAS NECESSÁRIAS PARA TRANSPLANTE EFICAZ 5 a 10 vezes inferior relativamente à medula óssea. Pode limitar a utilização, dependendo do peso do doente e da doença. Maior relativamente ao sangue do cordão umbilical e permite múltiplas recolhas.
COMPATIBILIDADE Maior tolerância, possibilidade de utilizar amostras mesmo quando a compatibilidade entre dador e paciente não é total. Menor tolerância, fazendo com que a probabilidade de encontrar um dador compatível seja menor.
RISCO DE EFEITOS SECUNDÁRIOS (DOENÇA DO TRANSPLANTE CONTRA O HOSPEDEIRO – GVHD) Menor, comparado com medula óssea.1 Maior, comparado com sangue do cordão umbilical.
TEMPO DE RESTABELECIMENTO HEMATOPOIÉTICO Cerca de 1-2 semanas mais lento.2 Mais rápido.
RISCO E DESCONFORTO NA COLHEITA A colheita é indolor e não apresenta riscos nem para a mãe nem para o bebé. A colheita envolve um procedimento cirúrgico simples com anestesia, mas invasivo o que comporta sempre algum risco.

(1) A explicação aceite é que em transplantes com sangue do cordão umbilical, uma vez que o recém-nascido é “imunologicamente imaturo”, é menor o risco de induzir a GVHD (do inglês graft-versus-host disease) que se refere à doença do enxerto (transplante) contra o hospedeiro. Esta é uma complicação que ocorre por vezes em transplantes alogénicos (dador e doente são pessoas diferentes) em que os glóbulos brancos do dador (transplantados) reconhecem as células do doente (hospedeiro) como estranhas, desenvolvendo uma resposta imunológica contra estas. Esta doença pode ser fatal.

(2) Este atraso na recuperação comparativamente ao transplante de medula óssea está provavelmente relacionado com o número de células transplantadas.

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Quando se procede à criopreservação

Células Estaminais do Cordão Umbilical

O único momento em que pode ser feita a criopreservação de células estaminais do cordão umbilical é no período de 72 horas a seguir à sua colheita no momento do parto. A colheita é simples, segura e indolor. Após a clampagem do cordão umbilical, o sangue é colhido para um saco próprio e o tecido para um frasco, sendo devidamente acondicionados de modo a garantir a sua segurança no transporte até ao laboratório. É importante tomar a decisão acerca da criopreservação, seja para guardar num banco familiar ou num banco público, algumas semanas ou meses antes do parto para garantir que a documentação esteja devidamente preparada. Se optar por não guardar as células estaminais do cordão umbilical, este será descartado no hospital.

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Banco familiar vs. banco público

Para se proceder à Criopreservação é possível recorrer a um Banco Familiar ou a um Banco Público.
A coexistência destas duas opções é fundamental para garantir o acesso de doentes à melhor opção de tratamento possível.

Banco Familiar Banco Público
AMOSTRA Apresenta como maior vantagem o facto de poder disponibilizar as células estaminais para o próprio ou para familiares compatíveis. Em casos de irmãos, a probabilidade de compatibilidade é de 25%, ao passo que entre pessoas não relacionadas esse valor é inferior a 0,01%1. As amostras são doadas com o objetivo de criar um registo de dadores que possa beneficiar doentes que necessitam de células estaminais de terceiros. As amostras são de propriedade pública, logo o dador das células estaminais não tem qualquer direito sobre a amostra que doou.São apenas armazenadas um número limitado de amostras devido a critérios de representatividade e eficiência (são conservadas as que representam as características da população em geral).
UTILIZAÇÃO CLÍNICA As amostras destinam-se a transplantes autólogos (para o próprio) ou alogénicos (para familiares compatíveis).Neste contexto, importa referir que para doenças que podem ser tratadas com células próprias, a probabilidade de sucesso dos transplantes é superior em relação aos transplantes em que são utilizadas células de outros dadores. Transplantes alogénicos com amostras de familiares apresentam uma taxa de sucesso superior aos transplantes alogénicos não relacionados. As amostras destinam-se a transplantes alogénicos, i.e, transplantes entre pessoas diferentes. Os médicos identificam possíveis dadores através de registos de dadores internacionais.
CUSTOS Após a criopreservação bem sucedida, é feito o pagamento do serviço. No caso de criopreservação das células estaminais do sangue e com uma duração de 25 anos, o custo traduz-se em 10 cêntimos por dia. Trata-se de uma doação para fins públicos.

Referências:

1One Chance in a Million: Altruism and the Bone Marrow Registry, Ted C. Bergstrom, Rod Garratt, Damien Sheehan-Connor, April 23, 2008

Sabia que…

Bancos públicos e familiares coexistem em todo o mundo

Existem bancos públicos e familiares de armazenamento das células estaminais do sangue do cordão umbilical colhidas à nascença. Nos bancos familiares são armazenadas amostras de sangue do cordão umbilical para uso autólogo (no próprio) ou em familiares compatíveis (alogénicos relacionados), enquanto nos bancos públicos são guardadas amostras de dadores voluntários, para serem utilizadas em transplantes alogénicos (nos quais o dador das células é diferente do recetor). No âmbito das aplicações atuais na área da hemato-oncologia existem doenças (por exemplo, em doenças genéticas) para as quais é indicada a utilização de células de um dador compatível e a existência de bancos públicos é importante nos doentes para os quais não é possível encontrar dadores compatíveis no seio familiar. No entanto, existem outras aplicações nas quais a abordagem autóloga será a preferencial e, mesmo nas aplicações alogénicas, a utilização de uma amostra de um familiar compatível (preferencialmente um irmão) é melhor do que a de um dador não aparentado. Bancos públicos e privados são perfeitamente compatíveis, até mesmo complementares, como tem sido demonstrado em vários países onde ambos coexistem, inclusive dentro da mesma estrutura.

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