A doença de Alzheimer é uma doença neurodegenerativa que se caracteriza por declínio cognitivo progressivo, atrofia cerebral grave e neuroinflamação, constituindo a principal causa de demência em todo o mundo. Apesar de nos últimos anos terem surgido novos medicamentos dirigidos a esta patologia, usando abordagens inovadoras, as opções de tratamentos disponíveis continuam a demonstrar eficácia limitada e estão associadas a elevada incidência de efeitos adversos.
As terapias baseadas em células, particularmente as que utilizam células estaminais mesenquimais (MSCs), têm sido apontadas como uma alternativa promissora para a doença de Alzheimer. As MSCs exibem múltiplas propriedades terapêuticas, incluindo mecanismos provasculares, anti-inflamatórios, imunomoduladores e de reparação de tecidos, com evidências pré-clínicas que suportam os seus benefícios em modelos animais da doença de Alzheimer. Neste contexto, e após um ensaio clínico de fase 1, que mostrou a segurança da administração do Laromestrocel, um produto de terapia celular à base de células estaminais mesenquimais alogénicas da medula óssea, foram recentemente publicados na revista científica Nature Medicine os resultados de um ensaio clínico de fase 2a, randomizado, duplo-cego, controlado por placebo e de grupos paralelos (NCT05233774) que teve como objetivo investigar a segurança e a eficácia do Laromestrocel em retardar a progressão da doença de Alzheimer, reduzir a atrofia cerebral e aliviar a neuroinflamação associada a esta doença.
Células estaminais mesenquimais reduzem declínio do volume cerebral e neuroinflamação associados à Doença de Alzheimer
No estudo foram incluídos, entre 2021 e 2022, 49 participantes de 10 centros clínicos nos EUA, com idade média de 74,1 ± 6,65 anos, sendo 44,9% dos participantes do sexo masculino e 55,1% do sexo feminino. Os doentes elegíveis para participar no ensaio clínico tinham um diagnóstico clínico de doença de Alzheimer leve* no momento da inclusão. Os doentes incluídos foram aleatoriamente distribuídos em um dos quatro grupos de tratamento, tendo recebido uma infusão por mês ao longo de 4 meses. Os doentes do grupo 1 (grupo placebo) receberam 4 infusões de placebo (solução salina contendo albumina) (n = 12); os do grupo 2, uma infusão de 25 milhões de MSCs seguida de três infusões de placebo (n = 13); os do grupo 3, quatro infusões de 25 milhões de MSCs (n = 13) e os do grupo 4, quatro infusões de 100 milhões de MSCs (n = 11). O Laromestrocel foi administrado por infusão intravenosa durante aproximadamente 40 minutos sem pré-medicação, não tendo sido reportadas reações adversas relacionadas com a infusão.
Na avaliação às 39 semanas após o início do tratamento experimental, os doentes que receberam Laromestrocel apresentaram melhores resultados clínicos em comparação com o grupo placebo. O tratamento reduziu o declínio do volume cerebral total em 48,4% nos grupos tratados com MSCs (P = 0,005) e a perda de volume do hipocampo esquerdo em 61,9% (P = 0,021). Para além disso, nos doentes tratados com MSCs observou-se uma diminuição da neuroinflamação associada à doença. De acordo com os resultados obtidos, os investigadores deste estudo consideram que o Laromestrocel atua sobre as componentes neurovascular e inflamatória da doença de Alzheimer, podendo ser complementar a outras estratégias terapêuticas utilizadas no tratamento da doença. Globalmente, os resultados deste estudo confirmam a segurança do tratamento com Laromestrocel, em doses únicas e múltiplas, para a doença de Alzheimer leve e sugerem a sua eficácia no combate ao declínio do volume cerebral e potencialmente da função cognitiva. Os autores do estudo colocam a hipótese de tratamentos mais longos poderem retardar ainda mais a progressão da doença de Alzheimer e sublinham a necessidade de ensaios clínicos em larga escala, com tratamentos mais longos e com maior tempo de seguimento para esclarecer o potencial terapêutico do Laromestrocel no tratamento da doença de Alzheimer.
*Na doença de Alzheimer consideram-se três fases clínicas: leve, moderada e avançada (grave). A doença de Alzheimer leve corresponde à fase inicial da doença.
Referências
– Rash, B.G. et al. Allogeneic mesenchymal stem cell therapy with laromestrocel in mild Alzheimer’s disease: a randomized controlled phase 2a trial. Nat Med (2025). https://doi.org/10.1038/s41591-025-03559-0.
– Brody, M. et al. Results and insights from a phase I clinical trial of Lomecel-B for Alzheimer’s disease. Alzheimers Dement. (2023) 19, 261–273.
– https://www.clinicaltrials.gov/study/NCT05233774, acedido a 10 de abril de 2025.
– https://alzheimerportugal.org/progressao-da-demencia/, acedido a 10 de abril de 2025.
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