Tratamento de fístulas na doença de Crohn com células estaminais: resultados positivos após 2 anos

Foi recentemente publicado na revista Stem Cell Translational Medicine o resultado de um estudo demonstrando o benefício do tratamento com células estaminais do tecido adiposo no tratamento de fístulas associadas à doença de Crohn.

A Doença de Crohn é uma doença inflamatória crónica do intestino que pode afetar qualquer região do tubo digestivo, mas é mais frequente na região terminal do intestino delgado. Apesar de poder afetar qualquer grupo etário, surge com mais frequência entre os 16 e os 40 anos. Em Portugal, a prevalência estimada desta doença é de 73 por 100 000 habitantes.

Uma das complicações associadas à doença de Crohn é a formação de fístulas, que resultam da extensão de úlceras através da parede do intestino criando uma ligação anormal entre o intestino e a pele ou outro órgão. Estas fístulas surgem em cerca de 38% dos casos de doença de Crohn, diminuindo significativamente a qualidade de vida destes doentes. Os tratamentos atualmente disponíveis não são eficazes, sendo necessário desenvolver terapêuticas mais eficientes.

Neste contexto, um grupo de investigadores desenvolveu um ensaio clínico de fase II, com o objetivo de testar a segurança e eficácia da utilização de células estaminais mesenquimais, isoladas a partir do tecido adiposo, em fístulas associadas à doença de Crohn. Foram recrutados 43 doentes com fístulas perianais (próximas da região do ânus) para o ensaio. As células estaminais mesenquimais foram isoladas a partir de tecido adiposo autólogo (do próprio doente) e foram depois injetadas na região da fístula. A quantidade de células estaminais aplicada foi proporcional ao tamanho da fístula. Os doentes nos quais não se verificou a cicatrização da fístula receberam uma segunda injeção de células estaminais. Ao fim de 8 semanas observou-se a cicatrização das fístulas em 82% dos doentes. Destes, 88% mantinham-se sem reabertura da fístula 1 ano após o tratamento. Estes resultados demonstraram que a aplicação de células mesenquimais autólogas derivadas de tecido adiposo é um procedimento seguro e com potencial no tratamento desta patologia.

Os investigadores continuaram a acompanhar os doentes para averiguar o efeito do tratamento a longo prazo. Os resultados desse estudo foram agora publicados. Foram seguidos 41 dos 43 doentes inicialmente tratados, verificando-se que 2 anos após o tratamento com células estaminais mesenquimais de tecido adiposo, 75 % dos doentes tratados continuavam sem recorrência de fístulas.

Estes resultados sugerem que as células mesenquimais autólogas isoladas a partir do tecido adiposo poderão, no futuro, constituir uma opção para o tratamento das fístulas associadas à doença de Crohn.

Fonte: http://stemcellstm.alphamedpress.org/content/early/2015/03/29/sctm.2014-0199.abstract