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Células estaminais do cordão umbilical: presente e futuro

Células estaminais do cordão umbilical: presente e futuro

20.10.2026

22 minutos de leitura

Dr.ª Alexandra Machado, diretora médica da Crioestaminal

Dr.ª Alexandra Machado, diretora médica da Crioestaminal

Células estaminais do cordão umbilical: presente e futuro

O nascimento de um bebé é o único momento em que é possível colher as células estaminais do cordão umbilical. Por isso, é durante a gravidez que muitas famílias procuram informação sobre o tema, e é natural que surjam dúvidas. Para que servem estas células? Quem as pode usar? Qual é a probabilidade de virem a ser necessárias? Mantêm-se viáveis ao fim de muitos anos? E o que é já tratamento e o que é ainda investigação?

Neste artigo, procuramos responder a estas perguntas com base na evidência científica mais recente, distinguindo sempre o que já faz parte da prática clínica do que ainda está em estudo. Acreditamos que uma família bem informada toma sempre a melhor decisão para si, seja ela qual for.

O que são as células estaminais do cordão umbilical?

O cordão umbilical contém dois tipos de células estaminais, com funções diferentes e complementares.

No sangue do cordão umbilical encontram-se sobretudo células estaminais hematopoiéticas, que dão origem a todas as células do sangue e do sistema imunitário: os glóbulos vermelhos, que transportam oxigénio, os glóbulos brancos, que nos defendem das infeções, e as plaquetas, que intervêm coagulação. Funcionam como a «fábrica» do sangue.

No tecido do cordão umbilical encontram-se sobretudo células estaminais mesenquimais, que ajudam a reparar tecidos danificados e a regular o sistema imunitário, acalmando-o quando reage em excesso ou ataca o próprio organismo.

A colheita é feita logo após o nascimento, depois de o cordão ser cortado. É indolor, não acarreta riscos para a mãe ou para o bebé e não interfere com os cuidados habituais do parto. Um consenso publicado em 2026 pelas sociedades polacas de hemato-oncologia pediátrica e de ginecologia e obstetrícia lembra que a colheita é compatível com a clampagem tardia do cordão, desde que realizada segundo os procedimentos adequados.

Em resumo

  • O sangue do cordão contém as células que dão origem ao sangue e ao sistema imunitário; o tecido do cordão contém células que ajudam a reparar tecidos e a regular a imunidade.
  • A colheita só é possível no momento do parto, é indolor e não tem riscos para a mãe ou para o bebé.

Para que serve hoje o sangue do cordão umbilical?

Em 1988, em França, uma criança com anemia de Fanconi, uma doença grave da medula óssea, recebeu o primeiro transplante de sangue do cordão umbilical, com as células do irmão. Desde então, o sangue do cordão tornou-se uma fonte reconhecida de células para transplante, a par da medula óssea e do sangue periférico, e foi usado em cerca de 85.000 transplantes em todo o mundo, em crianças e adultos. Só em 2025, a rede internacional de registos de dadores e bancos públicos (WMDA) distribuiu 6.775 unidades de sangue do cordão para transplante.

Hoje, o transplante de células estaminais do sangue é um tratamento estabelecido em cerca de 90 doenças oncológicas, hematológicas e metabólicas, como certas leucemias e linfomas, as síndromes mielodisplásicas, a anemia aplástica grave e a anemia de Fanconi, as imunodeficiências graves, algumas doenças hereditárias do sangue, como a talassemia e a anemia falciforme, e algumas doenças metabólicas raras, como as mucopolissacaridoses e as leucodistrofias. Em parte destas doenças, o transplante é feito com células de um dador. Em várias delas, o transplante pode ser curativo, embora o resultado dependa sempre da doença, da fase em que se encontra e da compatibilidade entre dador e doente.

Em comparação com outras fontes de células, o sangue do cordão tem vantagens próprias:

  • Disponibilidade imediata: a amostra já está colhida, analisada e congelada, ao passo que encontrar e preparar um dador pode demorar semanas ou meses.
  • Maior tolerância à discrepância na compatibilidade: pode ser usado com um grau de compatibilidade menor do que o exigido a um dador não relacionado de medula óssea”.
  • Menor risco de complicações imunológicas graves, como a doença do enxerto contra o hospedeiro, em que as células transplantadas reagem contra o organismo do doente.
  • Células biologicamente jovens, cujas potenciais vantagens têm despertado um interesse crescente na comunidade médica.

Um estudo recente realizado em 10 centros do Reino Unido e da Irlanda, com 367 crianças com leucemia mieloide aguda de alto risco, associou o transplante de sangue do cordão a menos recaídas e a melhor sobrevivência sem doença.

A escolha da fonte de células cabe sempre à equipa de transplante, que hoje dispõe de várias opções, incluindo dadores familiares parcialmente compatíveis. O sangue do cordão continua a ser uma dessas opções, com vantagens próprias em situações específicas.

Em resumo

  • O sangue do cordão é usado em transplantes desde 1988 e é um tratamento reconhecido em cerca de 90 doenças do sangue, do sistema imunitário e do metabolismo.
  • Está disponível de imediato, tolera melhor a incompatibilidade e associa-se a menos complicações imunológicas graves.

Quem pode usar as células guardadas: a criança ou a família?

As células guardadas podem, em certas situações, ser usadas pela própria criança (uso autólogo) ou por um familiar compatível (uso familiar). A decisão é sempre do médico que acompanha o doente.

Na própria criança. O uso autólogo está descrito em situações selecionadas, como a anemia aplástica grave. Em 2019, uma criança portuguesa com esta doença foi tratada no IPO de Lisboa com o seu próprio sangue do cordão, guardado na Crioestaminal. Há, no entanto, situações em que as células do próprio não podem ser usadas: nas doenças genéticas e, em alguns casos, nas leucemias da própria criança, porque as células guardadas podem ter a mesma alteração que está na origem da doença.

Num irmão ou noutro familiar. Nestas situações, a amostra pode vir a ser útil para um irmão compatível. Entre irmãos filhos dos mesmos pais, a probabilidade de compatibilidade total é de 25%, e o sangue do cordão permite algum grau de incompatibilidade. Os transplantes de sangue do cordão entre irmãos têm resultados muito favoráveis: nas doenças não oncológicas, a sobrevivência ronda os 90%, com resultados particularmente bons nas doenças hereditárias do sangue. Por isso, a Academia Americana de Pediatria e o Colégio Americano de Obstetrícia e Ginecologia consideram que a criopreservação pode justificar-se quando já existe na família alguém com uma doença tratável por transplante, e o grupo europeu Eurocord, num estudo sobre doenças da medula óssea, recomendou colher o sangue do cordão no nascimento de um novo irmão. A utilização de uma amostra num familiar depende sempre da avaliação da equipa médica e do cumprimento dos requisitos legais aplicáveis.

Em resumo

  • As células podem ser usadas pela própria criança em algumas situações, como a anemia aplástica grave, mas não para tratar doenças genéticas.
  • Quando já existe na família alguém com uma doença tratável com transplante, guardar o sangue do cordão de um novo irmão é apoiado por sociedades científicas.

Qual é a probabilidade de vir a usar as células?

A probabilidade de uma criança vir a precisar das suas células do cordão é baixa, e isso é uma boa notícia: significa que a grande maioria das crianças nunca vai precisar de um transplante. Segundo o Colégio Americano de Obstetrícia e Ginecologia, a probabilidade de, ao longo da vida, uma pessoa vir a ter indicação para um transplante com o seu próprio sangue do cordão situa-se entre 1 em 400 e 1 em 2.500. A isto acresce a possibilidade de utilização num familiar compatível.

Importa também distinguir o número de amostras usadas até hoje da probabilidade de utilização ao longo da vida. A maioria das amostras guardadas em bancos familiares pertence a crianças e jovens, uma vez que estes bancos existem há pouco mais de três décadas, e muitas das doenças tratadas com transplante surgem com mais frequência na idade adulta. Contar as amostras usadas até hoje diz-nos quantas foram necessárias até agora; não nos diz quantas o serão ao longo de toda a vida.

E as amostras guardadas pelas famílias são, de facto, utilizadas. Nos três maiores bancos familiares dos Estados Unidos, mais de 1.300 famílias já usaram o sangue do cordão que guardaram: mais de 800 crianças foram tratadas com as suas próprias células e mais de 590 com as de um irmão, em contexto de tratamentos autorizados ou ensaios clínicos. A Crioestaminal pertence ao grupo europeu FamiCord, que guarda mais de um milhão de amostras de diferentes tipos de células e que, até julho de 2026, já tinha libertado 8.595 produtos de terapia celular, entre os quais 282 de sangue do cordão e 2.014 de células mesenquimais do tecido do cordão.

Em Portugal, a Crioestaminal, fundada em 2003, já foi escolhida por mais de 120.000 famílias e, desde 2007, libertou para tratamento 27 amostras do cordão umbilical (23 de sangue e 4 de células mesenquimais do tecido), e 22 crianças portuguesas já receberam células guardadas no nosso laboratório, em tratamentos e em programas de investigação. Entre os casos tratados em Portugal contam-se uma imunodeficiência combinada grave (IPO do Porto, 2007), uma anemia aplástica (IPO de Lisboa, 2019) e, com células do tecido do cordão, um caso grave de doença do enxerto contra o hospedeiro (IPO de Lisboa, 2020). Foram ainda enviadas amostras para Espanha, para o tratamento de uma leucemia mieloide aguda.

Em resumo

  • A probabilidade de vir a precisar das próprias células é baixa; a ela soma-se a possibilidade de uso num familiar.
  • O número de amostras usadas até hoje não corresponde à probabilidade de uso ao longo da vida.
  • As amostras guardadas pelas famílias são usadas: mais de 1.300 famílias nos maiores bancos dos EUA e 282 amostras de sangue do cordão libertadas para tratamento no grupo FamiCord.

Uma amostra de sangue do cordão chega para tratar um adulto?

Durante muitos anos, o principal limite do sangue do cordão foi a quantidade de células: uma amostra chega para tratar uma criança, mas pode ser insuficiente para um adulto, o que se traduzia numa recuperação mais lenta após o transplante. A medicina encontrou várias formas de ultrapassar este limite:

  • Usar duas amostras em simultâneo, prática usada em adultos desde 2005.
  • Juntar o sangue do cordão à medula óssea do mesmo irmão dador. Num registo europeu de 156 crianças tratadas desta forma, a sobrevivência aos quatro anos foi de 90%.
  • Multiplicar as células em laboratório antes do transplante (expansão celular). Em abril de 2023, a FDA, a agência do medicamento dos Estados Unidos, aprovou o Omisirge, um medicamento produzido a partir de uma única amostra de sangue do cordão, para doentes a partir dos 12 anos com cancro do sangue. No ensaio que levou à aprovação, a recuperação dos glóbulos brancos demorou, em média, 12 dias, contra 22 com o transplante convencional. Em dezembro de 2025, a aprovação foi alargada à anemia aplástica grave, a partir dos 6 anos. Na União Europeia, a Comissão Europeia autorizou em agosto de 2025 o Zemcelpro, outra terapia com sangue do cordão multiplicado em laboratório, para adultos com cancro do sangue sem dador compatível.

Estas terapias são produzidas a partir das amostras do dador e usadas em centros especializados, por decisão da equipa de transplante. Mostram, no entanto, que o limite do número de células, que durante décadas restringiu o sangue do cordão sobretudo às crianças, está a ser ultrapassado.

Em resumo

  • O número de células de uma amostra deixou de ser uma barreira intransponível nos adultos.
  • Já existem medicamentos aprovados nos EUA e na Europa que multiplicam em laboratório as células de uma amostra de sangue do cordão.

As células mantêm-se viáveis ao fim de muitos anos?

Sim. Guardadas em azoto líquido, a temperaturas abaixo de −150 °C, as células praticamente deixam de envelhecer. O estudo mais longo publicado até hoje, do banco José Carreras, na Alemanha, avaliou amostras guardadas até 29 anos: mantinham-se viáveis cerca de 89% das células nucleadas e 91% das células estaminais hematopoiéticas, e o tempo de armazenamento não teve efeito negativo nos resultados dos transplantes realizados. Outro estudo, com amostras guardadas durante 27 anos, confirmou que as células mantinham a sua capacidade de funcionar.

Para que isto aconteça, a qualidade conta em todas as fases: colheita, transporte, processamento, análise e armazenamento. Por isso, é importante que o banco escolhido seja autorizado e fiscalizado pelas autoridades de saúde e cumpra padrões internacionais de qualidade, como os da AABB, uma das duas entidades internacionais de referência na acreditação de bancos de sangue e tecido do cordão umbilical, e que acredita a Crioestaminal.

Em resumo

  • Corretamente armazenadas, as células do cordão mantêm-se viáveis e funcionais ao fim de quase três décadas.
  • A qualidade da colheita, do processamento e do armazenamento é determinante para a utilidade futura da amostra.

E o tecido do cordão umbilical, para que serve?

As células estaminais mesenquimais do tecido do cordão não produzem sangue. O seu potencial é outro: ajudam a reparar tecidos e têm uma grande capacidade de regular o sistema imunitário e de reduzir a inflamação. Por isso, são estudadas em doenças em que o sistema imunitário ataca o próprio organismo, em doenças osteoarticulares, lesões de órgãos e em complicações do transplante. Em comparação com as células mesenquimais de tecidos adultos, como a medula óssea ou a gordura, as do cordão umbilical multiplicam-se com mais facilidade e são pouco reconhecidas pelo sistema imunitário de outra pessoa, o que facilita a sua utilização entre dador e doente.

É uma das áreas mais ativas da medicina regenerativa. Até ao final de 2023, estavam registados 581 ensaios clínicos com células do tecido do cordão, que é hoje a fonte mais usada de células mesenquimais de origem perinatal. E esta classe de células já chegou à prática clínica:

  • Na Coreia do Sul, o Cartistem, feito com células mesenquimais do sangue do cordão, é usado desde 2012 na regeneração da cartilagem do joelho.
  • Nos Estados Unidos, a FDA aprovou em dezembro de 2024 o primeiro medicamento com células mesenquimais (obtidas da medula óssea), para crianças com doença do enxerto contra o hospedeiro que não responde aos corticoides.
  • Na China, foi aprovado em janeiro de 2025 o primeiro medicamento com células mesenquimais do cordão umbilical, para a mesma complicação em adultos.

Em ensaios clínicos controlados, as células mesenquimais do cordão mostraram resultados encorajadores em doenças como a diabetes tipo 1 recém-diagnosticada, em que ajudaram a preservar a produção de insulina do próprio doente, a insuficiência cardíaca e a cirrose hepática.

Em Portugal, em 2020, células mesenquimais do tecido do cordão guardadas na Crioestaminal foram usadas no IPO de Lisboa, em regime de isenção hospitalar, para tratar um caso grave de doença do enxerto contra o hospedeiro. A Crioestaminal desenvolve investigação nesta área, incluindo um medicamento experimental à base de células mesenquimais do tecido do cordão.

Em resumo

  • As células do tecido do cordão ajudam a reparar tecidos e a regular o sistema imunitário.
  • Já existem medicamentos com células mesenquimais aprovados, e estão em curso centenas de ensaios clínicos com células do tecido do cordão.

O que está ainda em investigação?

Além das utilizações estabelecidas, as células do cordão estão a ser estudadas em várias outras doenças. Estas aplicações não são ainda tratamentos aprovados, mas algumas mostram resultados promissores.

Paralisia cerebral. É a área em que a evidência mais avançou. Em 2025, uma análise internacional que reuniu os dados individuais de 11 estudos, publicada na revista Pediatrics, mostrou que o tratamento com sangue do cordão é seguro e melhora a função motora de algumas crianças, com maior benefício nas crianças com menos de 5 anos, nas formas mais ligeiras e com doses de células mais elevadas. Nos Estados Unidos, a Universidade de Duke disponibiliza este tratamento num programa de acesso alargado e, na Austrália, uma criança foi tratada pela primeira vez em 2025, fora de um ensaio clínico, com o seu próprio sangue do cordão. Na Europa, o grupo FamiCord mantém, desde 2019, um programa semelhante em parceria com o Hospital Pediátrico Universitário de Lublin, na Polónia.

Perturbação do Espetro do Autismo. A investigação continua, e algumas famílias participam em programas de investigação devidamente autorizados: em 2026, várias crianças portuguesas participaram no programa de isenção hospitalar do Hospital Pediátrico Universitário de Lublin. Os resultados ainda não permitem considerar esta aplicação um tratamento convencional. Pode saber mais no nosso artigo sobre o Programa de Acesso Alargado a Terapias Celulares.

Outras áreas. Decorrem estudos com células do cordão em doenças neurológicas, como o AVC, o traumatismo cranioencefálico, a lesão medular, a lesão cerebral do recém-nascido ou as doenças de Alzheimer e de Parkinson, em doenças autoimunes, como o lúpus, a artrite reumatoide, a esclerose múltipla ou a doença de Crohn, e ainda em doenças cardiovasculares, na diabetes e na displasia broncopulmonar do bebé prematuro.

Novas terapias contra o cancro. O sangue do cordão está também a ser usado como matéria-prima para uma nova geração de terapias celulares contra o cancro. Nos Estados Unidos, investigadores do MD Anderson Cancer Center modificaram em laboratório células NK obtidas de sangue do cordão de dador, para que reconhecessem e destruíssem células de linfoma e de leucemia. As células NK são um tipo de glóbulo branco especializado em eliminar células doentes. No primeiro ensaio, publicado em 2020, 8 dos 11 doentes tratados responderam ao tratamento, sem as complicações graves que podem surgir com outras terapias celulares deste tipo. Estas terapias usam unidades de dador e estão ainda em ensaios clínicos, mas mostram que o potencial do sangue do cordão vai muito além do transplante.

Hoje já é possível transformar células adultas em células estaminais. Ainda vale a pena guardar as do cordão?

As células estaminais pluripotentes induzidas, obtidas a partir de células adultas, são uma área muito promissora. Em março de 2026, o Japão aprovou, de forma condicional, as primeiras duas terapias com estas células, para a doença de Parkinson e para a insuficiência cardíaca. São, no entanto, terapias muito recentes, e estas células não têm ainda aplicação no transplante hematopoiético, onde o sangue do cordão é usado desde 1988. As duas áreas são complementares: é até possível obter células pluripotentes a partir de sangue do cordão guardado durante mais de 20 anos.

Nestas áreas, é importante distinguir três situações: os tratamentos aprovados, os ensaios clínicos e os programas de acesso alargado. Só os primeiros fazem parte da prática clínica corrente; os outros são a forma como a ciência gera, de forma segura e controlada, a evidência necessária para que novos tratamentos possam vir a ser aprovados.

Em resumo

  • A paralisia cerebral é a área de investigação mais avançada, com resultados encorajadores em crianças pequenas.
  • No autismo e noutras doenças, a investigação continua e não há ainda tratamentos aprovados.

Banco familiar ou banco público?

São duas opções diferentes, com objetivos diferentes, e complementares. No banco público, a amostra é doada de forma anónima e fica disponível para qualquer doente compatível que dela precise, sem que a família tenha acesso reservado. No banco familiar, a amostra fica guardada para a criança e para a sua família.

A Crioestaminal defende um banco público forte: as amostras públicas são essenciais, por exemplo, para doentes sem dador compatível ou de comunidades em que é mais difícil encontrar um dador. Em todo o mundo, a rede internacional WMDA reúne mais de 800 mil unidades de sangue do cordão disponíveis para transplante, em 53 bancos públicos de 36 países, e estima-se que existam mais de 4 milhões de amostras em bancos familiares. Na maioria dos países, incluindo os Estados Unidos, o Reino Unido, a Alemanha e a Polónia, os bancos familiares funcionam de forma legal e regulada, e os modelos mistos, que combinam as duas vertentes, são uma realidade crescente.

Em Portugal, a atividade dos bancos de células estaminais é autorizada e fiscalizada pelas autoridades de saúde, ao abrigo da lei que regula a colheita, o processamento e o armazenamento de tecidos e células de origem humana.

Em resumo

  • Banco público e banco familiar servem objetivos diferentes e são complementares.
  • Os bancos familiares são legais e regulados na maioria dos países, incluindo Portugal.

Como tomar uma decisão informada?

Guardar as células estaminais do cordão umbilical não é um seguro de vida nem uma garantia de tratamento. É a possibilidade de ter disponíveis células que só podem ser recolhidas no momento do parto, para as situações em que o médico as considere adequadas. Guardar ou não guardar são decisões igualmente válidas.

O consenso de 2026 das sociedades polacas de hemato-oncologia pediátrica e de ginecologia e obstetrícia recomenda que as grávidas recebam, durante a gravidez e idealmente no terceiro trimestre, informação rigorosa e objetiva sobre a colheita e a preservação do sangue do cordão, incluindo as suas aplicações atuais, as diferenças entre banco familiar e banco público, a probabilidade de utilização familiar e as suas limitações, para poderem tomar uma decisão informada e autónoma. O consenso não se pronuncia, de forma genérica, a favor ou contra a criopreservação familiar: deixa a decisão aos pais, desde que bem informados.

Se está a ponderar esta decisão, vale a pena perguntar:

  • O banco está autorizado pelas autoridades de saúde e acreditado por entidades internacionais?
  • Que análises são feitas à amostra e que informação recebo sobre ela?
  • Que experiência tem o banco na libertação de amostras para tratamento?
  • Em que condições as amostras são armazenadas e monitorizadas?

Em resumo

  • Guardar as células do cordão não é um seguro nem uma garantia: é uma possibilidade que só existe no momento do parto.
  • A decisão deve ser tomada com tempo, durante a gravidez, e com informação rigorosa sobre o que já é tratamento e o que é investigação.

Para saber mais

Para quem quiser aprofundar o tema:

  • Parent’s Guide to Cord Blood Foundation (parentsguidecordblood.org): organização sem fins lucrativos fundada em 1998, que mantém a base de dados internacional mais completa sobre bancos de cordão umbilical, públicos e familiares, e uma lista atualizada das doenças tratáveis com estas células.
  • Sociedade Portuguesa de Células Estaminais e Terapia Celular (spce-tc.org): associação científica sem fins lucrativos que reúne investigadores portugueses da área e promove a divulgação científica junto do público.

Referências

– American College of Obstetricians and Gynecologists. Committee Opinion No. 771: Umbilical Cord Blood Banking. Obstet Gynecol. 2019;133(3):e249-e253.

– FamiCord Group. Stem Cell Applications List. Dados a 31 de julho de 2026.

– Finch-Edmondson M, et al. Cord Blood Treatment for Children With Cerebral Palsy: Individual Participant Data Meta-Analysis. Pediatrics. 2025;155(5):e2024068999.

– Gluckman E, et al. Hematopoietic reconstitution in a patient with Fanconi’s anemia by means of umbilical-cord blood from an HLA-identical sibling. N Engl J Med. 1989;321(17):1174-1178.

– Liedtke S, et al. Long-Term Stability of Cord Blood Units After 29 Years of Cryopreservation: Follow-Up Data From the José Carreras Cord Blood Bank. Stem Cells Transl Med. 2024;13(1):30-42.

– Mayani H, Wagner JE, Broxmeyer HE. Cord blood research, banking, and transplantation: achievements, challenges, and perspectives. Bone Marrow Transplant. 2020;55(1):48-61.

– Polskie Towarzystwo Onkologii i Hematologii Dziecięcej (PTOHD) e Polskie Towarzystwo Ginekologów i Położników (PTGiP). Consenso de peritos sobre células estaminais hematopoiéticas de origem fetal. Julho de 2026.

– U.S. Food and Drug Administration. FDA approves omidubicel to reduce time to neutrophil recovery and infection in patients with hematologic malignancies. Abril de 2023.

– Verter F, Bersenev A, Silva Couto P. 2024 Update: How Many Clinical Trials Employ Perinatal Sources of Stem Cells? Parent’s Guide to Cord Blood Foundation, setembro de 2024.

– World Marrow Donor Association (WMDA). Dados globais de inventário e de distribuição de unidades de sangue do cordão, 2025.

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