Num estudo pioneiro, as células estaminais da placenta demonstraram-se eficazes no tratamento de um distúrbio do sistema nervoso central, antes do nascimento.
A placenta é um tecido extra-embrionário único que desempenha um papel fundamental na orquestração do desenvolvimento fetal ao longo da gestação, regulando a transferência de nutrientes e modulando a tolerância imunológica.
A placenta é rica em células estaminais mesenquimais que podem ser obtidas facilmente e até criopreservadas para utilização futura. O tecido placentário contém células estaminais, capazes de se diferenciar em uma ampla variedade de tipos de tecido, incluindo tecido adipogénico, miogénico, hepatogénico, osteogénico, cardíaco, endotelial, pancreático, pulmonar e neurológico.
Em fevereiro deste ano, a revista The Lancet publicou um estudo realizado na Universidade da Califórnia que relata os resultados do primeiro ensaio clínico em humanos para testar se células estaminais mesenquimais (MSCs) derivadas da placenta podem ser utilizadas de forma segura e eficaz durante a cirurgia intrauterina para reparar o mielomeningocele.
Porquê células da placenta
As células da placenta apresentam propriedades interessantes pela sua origem fetal, ausência de tumorigenicidade, efeito neuroprotetor e atividade anti-apoptótica.
Quando cultivadas em meio neurogénico específico, podem ser condicionadas a secretar concentrações mais elevadas de fatores de crescimento neurogénicos e, dessa forma, contribuir para resgatar neurónios apoptóticos in vitro. As células mesenquimais da placenta também possuem propriedades imunomoduladoras e potencial para expansão ex vivo. Comparadas com as células estaminais mesenquimais derivadas da medula óssea adulta, as células mesenquimais da placenta secretam quantidades superiores de fatores de crescimento neurotróficos essenciais, incluindo o fator eurotrófico derivado do cérebro e o fator de crescimento de hepatócitos. O envolvimento dos recetores da superfície celular com moléculas da matriz, quando as células mesenquimais da placenta são cultivadas num suporte de matriz extracelular, poderá aumentar ainda mais a sobrevivência e as funções biológicas destas células.
O que é o mielomeningocele?
O mielomeningocele é a forma mais grave de espinha bífida, um grupo de condições congénitas em que a coluna e a medula espinal não se formam corretamente. Estes distúrbios variam amplamente em gravidade, podendo causar desde uma incapacidade ligeira até serem potencialmente fatais. Todos os anos, cerca de meio milhão de bebés em todo o mundo nascem com defeitos no tubo neural. Investigações anteriores demonstraram que a cirurgia fetal para fechar a abertura na coluna pode melhorar os resultados, incluindo a redução da necessidade de derivações (shunts) para tratar a hidrocefalia.
Os bebés nasceram por cesariana com uma idade gestacional mediana de 34+5 semanas (variando entre as 33+2 e 36+6 semanas). Notavelmente, todos os bebés apresentaram a reversão da herniação do romboencéfalo, um indicador importante de melhoria nos resultados neurológicos. Exames complementares, particularmente a imagiologia pós-natais não revelaram crescimento de tecido anormal ou formação de tumores. Ao nascimento, os locais da reparação cirúrgica assemelhavam-se aos de bebés submetidos à reparação pré-natal padrão sem o tratamento com células estaminais.
Resultados
Neste estudo de fase 1, o primeiro em humanos e de braço único, seis mulheres grávidas cujos fetos foram diagnosticados com mielomeningocele foram tratadas na Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia, Davis (UC Davis), entre 2021 e 2022. As cirurgias foram realizadas entre as 24+5 e 25+5 semanas de gestação. O procedimento seguiu a abordagem padrão para a reparação fetal de mielomeningocele, com uma adição fundamental: uma camada de células estaminais mesenquimais derivadas da placenta, integradas numa matriz extracelular, foi aplicada diretamente.
Não ocorreram complicações intraoperatórias e nenhum dos fetos ou mães necessitou de transfusões, reanimação ou parto de emergência.
Conclusões
Este estudo demonstra a segurança da utilização das células estaminais mesenquimais derivadas da placenta no tratamento de um distúrbio do sistema nervoso central antes do nascimento. A terapia com células estaminais, realizada no momento da cirurgia pré-natal padrão para o mielomeningocele, não interfere com os benefícios conhecidos da cirurgia fetal e não está associada a quaisquer efeitos adversos relacionados com a aplicação das células. A fase 1/2a está em curso para avaliar a segurança a longo prazo e a eficácia preliminar deste tratamento com células estaminais.
Referências
Pollak R et al. Human Placenta-Derived Cells (PDA-002) in Diabetic Foot Ulcer Patients With and Without Peripheral Artery Disease: A Phase 2 Multi-Center, Randomised, Double-Blind, Placebo-Controlled Trial. Int Wound J. 2025 Oct;22(10):e70769. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41077558/