Células estaminais da polpa dentária com potencial para regenerar córnea – testes em ratinhos

Milhões de indivíduos em todo o mundo desenvolvem cegueira, devido a doenças da córnea (lesões provocadas por traumatismos ou infeções, ou ainda doenças genéticas). Este tipo de cegueira pode ser reversível desde que as restantes estruturas do olho estejam preservadas. Nestes casos, recorre-se ao transplante de córnea proveniente de cadáveres. Mas o fornecimento destas córneas é limitado, não permitindo satisfazer todas as necessidades, e neste tipo de transplantes também existe o risco de rejeição (em cerca de 38% dos transplantes). Dados da EBAA (Associação Americana de Bancos do Olho) indicam que só nos EUA foram realizados cerca de 70 000 transplantes de córnea no ano passado. Em Portugal, segundo a Sociedade Portuguesa de Oftalmologia, são realizados cerca de 700 transplantes de córnea por ano.

A córnea é a estrutura transparente na superfície ocular externa. Esta estrutura não tem vasos sanguíneos e serve como barreira física e biológica contra o ambiente externo. A sua curvatura e espessura características permitem a focagem da luz na retina. Na sequência de um trauma ou infeção é frequente a formação de uma cicatriz o que diminui a transparência da córnea levando a uma redução da visão ou até à cegueira.

Neste contexto, foram recentemente publicados na revista “Stem Cells Translational Medicine” os resultados de um estudo demonstrando que é possível a partir da polpa dentária de dentes de adultos regenerar a córnea em ratinhos.

A polpa dentária contem uma população de células estaminais adultas que tem a mesma origem embrionária do que as células da córnea. Baseado nesse facto, os investigadores colocaram a hipótese de que as células da polpa dentária teriam uma elevada afinidade para se diferenciar em células da córnea.

Os investigadores isolaram células mesenquimais da polpa dentária de dentes do sizo de indivíduos adultos e conseguiram diferenciá-las em células da córnea. Numa fase seguinte, injetaram as células na córnea de ratinhos e verificaram que estas se integraram na córnea dos ratinhos, sem qualquer sinal de rejeição mesmo após várias semanas.

Estes resultados são promissores sugerindo que no futuro poderá ser possível a partir da polpa de um dente do próprio doente obter células para regenerar a córnea. No entanto, estes são ainda resultados preliminares, sendo necessários vários anos até se poder avaliar se esta abordagem poderá ser usada em ensaios clínicos (testes em humanos). Os autores referem que o próximo passo será testar a utilização das células da polpa de dentes para regenerar córneas em coelhos.

Fonte:

http://stemcellstm.alphamedpress.org/content/4/3/276.abstract