Injeção de células estaminais permite recuperação de doentes com lesões na espinal medula

As lesões na espinal medula podem ter consequências devastadoras, como a perda total ou parcial de sensação e movimento abaixo do local da lesão. Outros problemas, como perda de controlo dos esfíncteres, também constituem um enorme desafio, tanto para os doentes, como para os seus cuidadores. Nos últimos anos, a terapia com células estaminais tem vindo a ser considerada como uma opção terapêutica com grande potencial para ajudar na reabilitação de doentes com lesões medulares. Em particular, as células estaminais mesenquimais do tecido do cordão umbilical têm suscitado grande interesse na comunidade científica, pela facilidade de obtenção, rápida proliferação, ação anti-inflamatória e capacidade de promover a sobrevivência de outras células.

Doentes com lesões medulares melhoram após tratamento com células do cordão umbilical

Um estudo recentemente publicado na revista Cytotherapy reportou a eficácia da aplicação de células estaminais mesenquimais do tecido do cordão umbilical a 41 doentes com lesões crónicas na espinal medula. Os doentes, com idades entre os 18 e os 65 anos, tinham sofrido lesões medulares, maioritariamente na sequência de acidentes de viação ou quedas. O intervalo de tempo entre a lesão e o início da terapia celular variou entre 2 meses e 20 anos. Cada participante recebeu 4 injeções de células estaminais mesenquimais do tecido do cordão umbilical na região lombar da coluna vertebral. As injeções foram administradas com um mês de intervalo, tendo os doentes sido acompanhados durante um ano após o último tratamento. Apesar de alguns participantes terem experienciado efeitos adversos, como febre ou dor de cabeça, estes foram ligeiros e facilmente resolvidos.

Quanto à eficácia do tratamento experimental, registaram-se melhorias significativas nos vários testes utilizados para medir a progressão dos doentes a diferentes níveis, por exemplo relativamente à mobilidade, controlo de esfíncteres, dor, tensão muscular e capacidade para executar tarefas básicas do dia-a-dia. Com base nestas melhorias, pode concluir-se que os participantes ganharam qualidade de vida após o tratamento experimental. A análise por subgrupos de doentes revelou que o benefício da terapia com células estaminais se verificou tanto nos doentes em fase inicial de lesão crónica, como nos doentes com lesão crónica estabelecida há vários anos, e com lesão em qualquer ponto da coluna (cervical, torácica ou lombar). Adicionalmente, a terapia experimental também se revelou benéfica, tanto em doentes com lesão incompleta como completa, os últimos geralmente em estado mais grave e com maior dificuldade em recuperar. Neste estudo, os dados relativos à segurança e à eficácia são promissores, abrindo caminho para a realização de mais ensaios clínicos que venham a validar esta técnica e a sua introdução na prática clínica corrente, para benefício dos doentes.

Apesar dos bons resultados alcançados neste ensaio clínico, favoráveis à utilização de células estaminais do cordão umbilical no tratamento de lesões crónicas, completas ou incompletas, da espinal medula, os autores sublinham que este estudo não incluiu grupo controlo, pelo que é imperativo realizar ensaios clínicos aleatorizados, com maior número de doentes e grupo controlo, para confirmar os resultados agora publicados.

 

Referência:

Yang Y, et al. Repeated subarachnoid administrations of allogeneic human umbilical cord mesenchymal stem cells for spinal cord injury: a phase 1/2 pilot study. Cytotherapy. 2020 Nov 17:S1465-3249(20)30903-8.